A Empregada: Resenha e Crítica

A Empregada: Resumo e Crítica

Tempo de leitura: 8 minutos

Millie Calloway está desesperada. Com um passado criminal que a impede de conseguir empregos comuns, ela vê na vaga de empregada doméstica para a riquíssima família Winchester sua única salvação.

Ela aceita morar em um sótão minúsculo, quente e que só tranca pelo lado de fora. No início, tudo parece um sonho: um salário bom e um patrão, Andrew, que é gentil e compreensivo. Mas logo a esposa, Nina, começa a agir de forma maníaca, sujando a casa de propósito e tratando Millie como lixo.

Pra quem morava num carro e tomava banho, quando conseguia, em algum chuveiro qualquer, um sótão, apesar de escondido, pequeno, e que não era possível se ouvir nenhum grito saído de lá, Millie aceita, e faz de tudo pra se manter nesse emprego aparentemente perfeito.

Freida Mcfadden
Freida Mcfadden

O livro explora a vulnerabilidade econômica de Millie, personagem principal que, apesar de uma ex detenta, precisa de uma residência física e de emprego pra continuar livre em sua condicional. Millie aceita abusos porque não tem para onde ir.

A fachada da família perfeita, mas esconde um segredo doméstico aterrorizante. O isolamento social e físico (a casa longe de tudo) é usado como arma para manter o controle sobre a protagonista. No entanto, ao longo do livro vamos perceber que ela, e ninguém nessa casa, é santo.

Os personagens

  • Millie: A protagonista é sobrevivente da vida, e que só quer um lugar pra recomeçar. Até as últimas páginas do livro, a autora deixa ela sempre com um ar de quase inocência, honestidade em relação ao seu retorno à sociedade. Ela não é uma “mocinha” indefesa; ela tem instinto de luta. Nina, ao contratar Millie, já estava ciente de seu passado como uma condenada, e não era uma tola ao contratar uma criminosa para trabalhar em sua casa.

  • Nina Winchester: A patroa instável. O leitor passa 70% do livro odiando-a, achando que ela é a vilã psicótica. E não deixa de ser, mas tem seus motivos. Ninguém em sã consciência julgaria as ações de Nina, e ela é uma das melhores, senão a melhor personagem do livro.

  • Andrew Winchester: O “marido dos sonhos”. Educado, rico e vítima das loucuras da esposa. Mas como dizem, “quando a esmola é demais, até o santo desconfia”. Ele é um personagem complexo, mas no fundo, simples. Ele é um psicopata ou um homem bom? É complexo demais pra eu deixar aqui a resposta;

  • O Sótão: Esse cômodo da casa é quase um personagem. Ele é importante não só física, mas também psicologicamente. Millie chega na casa entanto está morando em um carro, e um sótão, mesmo que minúsculo e afastado, é mil vezes melhor. Que ótimo poder dormir numa cama, não? No entanto, ali é um abatedouro psicológico: a porta só abre por fora e, por dentro, existem várias marcas de unhas. O que aconteceu ali? Pra Millie, o valor alto do salário e a cama só pra ela vale a pena em relação ao perigo? Pra ela, sim.

Análise crítica

A escrita de Freida McFadden é focada em ritmo. Os capítulos são curtos e terminam sempre com uma pergunta ou revelação. É o “livro pipoca”: fácil de consumir, mas difícil de largar. Comparado a clássicos, falta desenvolvimento poético, mas sobra engenhosidade na trama. É perfeito para quem quer se distrair.

Pra ser sincero, parecia que um estava vendo um filme. No meio, como já estava ali, eu terminei, mas a empolgação veio mais pela complexidade dos personagens e de quere saber o que tem de errado naquela casa. Mas a leitura é simples até demais. Parece que foi feita pra virar um filme, mesmo, como virou, e ser algo comercial.

Não é necessário ter nem 80 de QI pra conseguir dar conta da leitura. Uma criança de 10 anos consegue ler com tranquilidade. Tive essa sensação lendo “Rangers, A Ordem dos Arqueiros“, mas esse livro é infantojuvenil, objetivamente feito pra crianças. A Empregada parece se propor ao público adulto, mas a escrita é pra um adulto querendo se entreter, ou uma criança esperta. Isso é bom? Provavelmente sim. Nem todo livro precisa ser um clássico, e esse valem a pena pra se distrair.

Plot Twist (Spoiler)

O grande plot twist é que Andrew não é santo (como ninguém no livro). Nina, ao contratar uma ex presidiária, já estava planejando tudo. Ela foi, anos atrás, presa no sótão e torturada por Andrew. Ele fez um jogo psicológico para quem Nina não pudesse se divorciar dele após o ocorrido, muito por ela ter uma filha que morava com o casal. 

A ideia de Nina era contratar uma mulher mais jovem, mais bonita, que Andrew se atraísse fisicamente e a pudesse trocar, livrando Nina da prisão com portas abertas. O plano funciona: Andrew leva a empregada Millie para um jantar “às escondidas” de Nina, e dorme com ela. Após isso, com Nina sempre se fazendo de louca na casa, Andrew pede divórcio de Nina e a expulsa de casa. Nina chora e faz seu showzinho. O plano finalmente funcionou. Nina e sua filha estão livres.

Millie não é mais uma empregada, é atual parceira de um homem rico e bonito. E o plano de tortura de Andrew vai voltar em seu ciclo. Mas dessa vez é diferente. Millie não é uma mãe indefesa com uma filha, ela é uma ex presidiária que matou a sangue frio um estuprador, e outros, não se arrependendo de nenhum. Ela sempre foi uma justiceira, mesmo que incompreendida.

O final é empolgante, e certa justiça é feita, mas algo me incomodou: o livro termina com a “fada da conveniência” fazendo com que os crimes sejam todos impunes. Nenhum dos personagens é preso, apesar da polícia saber de tudo, investigar o caso, e depois arquivar. É muito mal explicado e, como disse antes, foi feito comercialmente, com um gancho final para o livro 2, com Millie continuando sua caçada à maridos agressores

Se quer um livro pra aumentar seu nível intelectual, caia fora. Mas o livro não foi proposto pra isso. A autora, Freida Mcfadden, escreve bem rápido. Poucos livros, com exceções como “Metamorfose”, de Kafka, que foi escrito em menos de 1 mês, são clássicos (ou ótimos livros). Freida fez um livro comercial, e por isso faz tanto sucesso. Ao ler, saiba que não está lendo Tolstói nem Dostoiévski, está lendo um livro honesto, bem divertido, mas um baita nota 7: você passa de ano, não se pode dizer que é ruim, mas você não vai se orgulhar dizendo que leu.

Dados gerais