O Discurso da Servidão Voluntária foi um texto escrito por Étienne de La Boétie por volta de 1548. O texto trata sobre como as tiranias se sustentam não pela imposição da força, mas sim pela pressão e submissão psicológica.
Inrivelmente, o Étienne escreveu esse texto quando tinha entre 16 e 18 anos de idade. Apesar de parecer muito novo — e realmente ser —, ele teve uma origem aristocrática na França e foi criado por seu tio, que era um clérigo que o ensinou desde muito cedo com profundidade a antiguidade clássica, com textos gregos e romanos. Então, com essa idade, ele já tinha um arsenal intelectual muito forte, o que o capacitou para escrever esse discurso tão importante.
Resumo Discurso da Servidão Voluntária
O discurso começa falando sobre o enigma do tirano. O Discurso da Servidão Voluntária não fala exatamente sobre como derrubar governos com armas ou revoluções, mas sim sobre como funciona a psicologia do poder. La Boétie nota que o tirano é só um homem — e muitas vezes um fraco, covarde, que não conseguiria brigar com uma pessoa do seu próprio tamanho e força se fosse necessário —, mas que domina milhões de pessoas. Ou seja, o tirano não se sustenta só pela força brutal; ele se sustenta pela submissão e pelo consentimento do povo. Se o povo simplesmente disser “não” e parar de servir, o tirano cai pelo próprio peso, como um colosso que perde os pés e cai.
La Boétie explica que as pessoas nascem naturalmente livres, mas acabam aceitando as próprias correntes por três motivos principais:
Costumes
As pessoas já nascem dentro de sistemas que entendem a servidão como o estado natural das coisas. Se elas acham que sempre foi assim, esquecem o gosto da liberdade. É bem comum conversar com as pessoas sobre democracia, Estado ou tirania e elas dizerem que a gente não está tratando do “mundo real”, que isso é papo utópico e que precisamos ser pragmáticos. Isso é servidão voluntária pelo costume. Isso se encaixa muito bem com o livro O Conto da Aia, onde uma das Marthas (as autoridades femininas daquela ditadura distópica) fala para as aias que para a geração delas seria difícil, mas que para as próximas gerações seria mais fácil, porque elas já não teriam a comparação com o mundo anterior.
“Decidam não mais servir, e vocês serão livres; não lhes peço que empurrem ou sacudam o tirano, mas que, simplesmente, não mais o sustentem – e vocês o verão, como um grande colosso cuja base se retira, cair graças ao seu próprio peso e quebrar-se em pedaços.”
Pão e Circo
Os tiranos usam símbolos nacionais, distrações e inimigos externos para justificar a própria existência. Na União Soviética usava-se o inimigo americano; na Coreia do Norte também; e no livro 1984 existe o lema da novalíngua de que “guerra é paz” e o povo aceita a opressão porque o “inimigo externo é pior”. No Admirado Mundo Novo isso aparece na forma de uma droga que deixa as pessoas felizes e entretidas para fugirem dos problemas. Na democracia acontece algo parecido: a cada eleição prometem coisas novas, distribuem esmolas e dinheiro do próprio povo para fazer achar que o próximo governo vai dar certo, enquanto o Estado só aumenta de poder e ficamos cada vez mais próximos de um governo global totalitário.
Pirâmide do Favor
Essa é a parte mais interessante. Para um sistema se manter, não existe apenas um tirano mandando em tudo. Ele precisa beneficiar uma classe de intelectuais e uma elite militar/burocrática. Na monarquia, o rei beneficiava os nobres e o exército — e como o exército estava bem equipado, não se revoltava, porque quem sofria era a população.
“São os próprios povos que se deixam degolar, pois bastaria deixarem de servir para romperem as suas correntes.”
Resenha
Na democracia, a ideia era que o governo ficasse “melhor” porque todos governariam. Mas, como o Hans-Hermann Hoppe explica no livro Democracia: O Deus que Falhou, isso é uma ilusão que só acentua a teia de interesses.
Se na monarquia existia um rei que beneficiava umas 600 pessoas que exploravam outras milhares, na democracia existem o presidente, o STF, centenas de deputados, senadores e dezenas de milhares de funcionários públicos. Se todos são beneficiados pelo sistema, todos são o governo; e se todos são o governo, ninguém é o governo. Essa cadeia gigante de beneficiados sempre vai defender o status quo.
“Aquele que vos domina tanto não tem mais que dois olhos, duas mãos, um corpo… de onde ele tira tantos olhos para vos espiar, se vós não lhos derdes?”
Se numa democracia você fizer uma revolta e tirar o presidente, no dia seguinte entra outro no lugar e a burocracia aumenta ainda mais o controle totalitário para a máquina não parar. Já numa monarquia, como vimos na queda do Império Russo na Revolução de 1917, quando o sistema quebrou e os próprios militares pararam de ter benefícios, eles se juntaram à população e acabaram com a família czarista. Isso prova a tese do La Boétie: tiranos, nobres e militares precisam ser beneficiados para o poder não cair.
O Discurso da Servidão Voluntária foi escrito no século XVI, dentro de um contexto absolutista francês. Mas a essência do texto não mudou absolutamente nada. Não vivemos num absolutismo tradicional, mas quem disse que temos mais liberdade? Como diria o Homer Simpson: “Estamos no pior momento das nossas vidas… mas no pior momento até agora!”