O livro Flores para Algernon, de Daniel Keyes, é um clássico americano que não à toa foi reproduzido em peças de teatro e até mesmo no cinema. A história narra Charlie, homem com deficiências cognitivas que passa por um experimento cientifico que tenta o fazer ficar mais inteligente. A cirurgia dá certo. Mas a que preço?
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Flores para Algernon conta a história de Charlie — não de Algernon —, que é um rapaz de mais de 30 anos com problemas mentais que vive em um lugar para pessoas com deficiência intelectual. Ele trabalha em um lugar para que tenha alguma ocupação, mas é uma pessoa que só consegue fazer coisas extremamente básicas. O QI dele é menor de 70 — se não me engano, alguma coisa entre 60 e 70 de QI.
Existe uma solução inovadora de alguns cientistas (do Dr. Nemur e do Dr. Strauss) que promete conseguir aumentar a inteligência das pessoas de forma cirúrgica. Já foi testado em um rato — esse sim chamado Algernon —, que demonstrou evolução na inteligência: ele conseguia fazer caminhos de labirinto com muita facilidade, decorava caminhos e na outra vez já fazia sem errar. Depois desse teste em ratos, eles queriam testar em alguma pessoa. Foi selecionado Charlie, que se demonstrou bem ativo em querer fazer a cirurgia. A cirurgia é feita sem nenhum problema.
A partir disso, é onde chega a forma como Flores Para Algernon é desenhado, que é feito com os relatórios: a gente está lendo os relatórios de progresso de Charlie para o médico dele, para ele contar como está sendo a semana e os dias dele. Os primeiros relatórios são até um pouco difíceis de ler, porque ele escreve muitas palavras erradas e não sabe muito bem se comunicar, porque é uma pessoa com QI abaixo de 70.
Só que, ao longo das semanas que vão passando, ele vai descobrindo novas palavras, vai ficando mais inteligente, até que ele não consegue mais ficar no trabalho dele. Ele passa a ter problemas com algumas pessoas porque, quando ele era “burro”, ele era mais amoroso com as pessoas e as pessoas riam dele, mas ele nem entendia isso. Ao passo que ele foi ficando inteligente, ele conseguiu descobrir que as pessoas estavam rindo dele, em vez de rir com ele. Inclusive, descobriu que um dos funcionários de onde ele trabalhava roubava o dono da loja. Quando descobriu isso, ele, ainda sendo um cara bonzinho, quis dedurar essa pessoa e acabou que não ficou mais naquele serviço.
A partir disso, ele começou a estudar, fazer algumas outras coisas e ficou muito mais inteligente do que professores de faculdade e cientistas. Aprendeu a falar línguas diferentes e realmente ficou uma pessoa muito inteligente. Só que, ao longo disso, ele perdeu a parte carinhosa que tinha quando era uma pessoa “burra”. Ele ficou inteligente, mas, ao passo que ficou inteligente, ficou arrogante ao mesmo tempo.
Ele não conseguia se comunicar direito com as pessoas, inclusive com a mulher que ele gostava (Alice Kinnian), que não conseguiu ficar com ele porque se sentia “burra” perto dele, pois só falava de coisas inteligentes. Depois, a gente vê uma regressão da inteligência dele, até que o Flores Para Algernon acaba de forma melancólica, com ele voltando aos níveis de inteligência que tinha antes, talvez até menos, sem ninguém, voltando à escuridão que sempre estivera antes.
Resenha
Flores para Algernon é simples: é um experimento científico que faz uma pessoa ficar muito inteligente e depois acabou não dando certo porque regrediu, teve o efeito colateral de deixá-lo mais “burro”. Então, no final das contas, não valeu a pena. Ou valeu? Pra Charlie, enquanto ainda era inteligente, não se arrependeu, e conseguiu ter um pouco de luz em sua vida, mesmo que pouca. Teve experiências, aprendeu coisas, enxergou o mundo, mesmo que no final dela voltou à sua infância desentendida.
No entanto, o que eu consegui tirar de lição do livro é que, na verdade, ele não está falando de um experimento científico; ele está falando simplesmente da nossa vida. Existem muitas partes do livro que mostram que, quando ele era criança, ele não tinha inteligência suficiente para entender como as coisas funcionavam. Frequentemente, quando se sentia nervoso, pressionado ou achava que estava atrapalhando alguém, ele fazia xixi e defecava em si mesmo de espanto, não conseguia se segurar e acabava gerando momentos muito constrangedores.
Ele não entendia se as pessoas estavam caçoando dele, e fazia o que entendia na própria inocência. Isso ficou até os 30 anos dele — ele era uma pessoa com problemas cognitivos aos 30 anos —, e era uma pessoa amorosa que ajudava todo mundo e via o mundo de uma forma colorida. Ele não entendia muito bem as expressões das pessoas e não entendia nem o que era sexo — é até engraçado a parte quando ele começa a descobrir o que é sexo.
Quando ele vai crescendo, percebe que as pessoas não são tão boas quanto achava que eram. Os pais dele não eram pessoas boas como ele achava que eram. Ele percebe que a vida não é simples; percebe que existem sim pessoas boas, mas algumas viam ele como um objeto, ou como um ser defeituoso, enquanto outras até gostavam dele, mas não conseguiam ficar perto por conta da condição dele.
Relacionamentos Amorosos
Uma coisa interessante foi que algumas das mulheres com quem ele ficou… Quando ele começou a ficar muito inteligente, uma delas disse que não conseguia ter relação com ele porque não conseguia se comunicar com ele, já que era muito mais inteligente do que ela e se sentia “burra”.
Quando eles não estavam próximos, ela tentava ler livros ou fazer alguma coisa para tentar se sentir um pouco mais inteligente perto dele, pois se sentia inferiorizada. Depois, quando seu QI está regredindo, em algum ponto eles ficam juntos e querem aproveitar um pouco da vida, porque eles se gostam, no final das contas. Ela diz, com todas as palavras, que não iria ficar com ele depois que voltasse a ser “burro” e nunca iria nem o visitaria no centro de pessoas especiais. Ela aceita, eles ficam, têm relações sexuais, etc..
O que eu acho interessante disso é que as pessoas, ao longo da nossa vida, só ficam com a gente — e a gente só fica com algumas pessoas — de acordo com o momento que passa na nossa vida. Quem nunca teve uma pessoa “perfeita” que não levou pra vida porque estavam em momentos diferentes?
Nossa vida
Imagina você quando tinha 10 anos: as pessoas te viam como uma criança de 10 anos. Quando você tinha 15 anos, você ainda era você, mas tinha outros pensamentos, outra forma de conversar e pensar. Quando você tinha 30, 40, 50 anos, você tinha experiências diferentes, se comunicava de jeitos diferentes, provavelmente era uma pessoa totalmente diferente. Só que, em todas as fases, você ainda era você. Mas quem exatamente é você?
A pessoa que te conheceu quando você tinha 10 anos e depois foi te ver quando você tinha 50 provavelmente nem vai te reconhecer, ou vai ter que entender quem é você agora. Uma pessoa que te conheceu quando você tinha 20 — por exemplo, uma namorada ou namorado — e vocês se separaram quando tinham 25, se ela te ver depois aos 40, vocês nem vão ter um relacionamento amoroso, nem vão ser amigos: vão ser completamente desconhecidos e vão ter que se reconhecer.
Ou seja, o que exatamente somos nós? Somos uma passagem do tempo, de formas e tempos diferentes, e a gente se transforma de jeitos diferentes. Para mim, Flores Para Algernon representou exatamente isso: quem nós somos ao longo da nossa vida, a perda da nossa inocência da infância; a maturidade que alcançamos e a arrogância que temos sobre os idosos e crianças quando somos os adultos da sala; e depois a inferioridade mental e física que voltamos a ter no final de nossas vidas. Mesmo nascendo “inúteis e burros”, e morrendo da mesma forma, caso tenhamos a sorte de morrermos velhos, o tempo em que somos “inteligentes” e viris vale a pena. A vida vale a pena, mesmo que seja apenas por um momento, alguns anos ou algumas décadas.
Considerações Finais
Flores Para Algernon fala sobre a nossa vida, sobre a passagem da vida e o nosso entendimento das diferentes formas como a gente enxerga a vida de acordo com a nossa capacidade de enxergar a realidade. Qual está certa? Deveríamos ser mais arrogantes e e inteligentes, ou mais inocente e ao mesmo tempo mais querido com as pessoas, ter bons relacionamentos e deixar um pouco de lado a busca pela verdade e pelo conhecimento? A vida vale a pena ser vivida? Sim, vale.
Eu não tenho uma conclusão sobre todas as perguntas, e o livro também não dá muitas conclusões além de que a vida vale a pena. Por isso, não à toa, Flores para Algernon é um clássico americano e com certeza vale a pena ler.
FAQ
Qual a doença de Charlie em Flores para Algernon?
A doença de Charlie se chama fenilcetonúria, doença que causa deficiênciaintelectual. Ele é assim desde a infância, e após seus 30 anos, faz uma cirurgia que reverte a situação e o torna superinteligente.
A história de Flores para Algernon é baseada em uma história real?
Não, a história é fictícia, baseada em diversas experiências pessoais do autor Daniel Keyes com pessoas com deficiência intelectual.