Resumo: O Capital - Completo

Resumo: O Capital – Completo

Tempo de leitura: 38 minutos

O Capital (Das Kapital), obra monumental de Karl Marx publicada originalmente em 1867, apresenta uma análise profunda do sistema capitalista, focando em sua dinâmica social e econômica. O livro introduz conceitos fundamentais como a mais-valia, a acumulação de capital, o fetiche da mercadoria e a teoria do valor-trabalho. Marx busca demonstrar as contradições internas do capitalismo e como a relação entre capital e trabalho molda a estrutura das sociedades modernas.

Sou um grande apaixonado por teoria econômica no geral e, em minha época de faculdade de Economia, conheci o livro do italiano Carlo Cafiero, que escreveu o livro ‘O Capital, uma leitura popular’. O livro foi feito na intenção de facilitar o entendimento da obra completa do livro primeiro de O Capital para os italianos da época. 

O mesmo aconteceu com o livro “O Capital, extratos por Paul Lafrague”, escrito pelo cunhado de Karl Marx, o francês Lafrague que, da mesma forma de Cafiero, quis fazer de “O Capital” mais conhecido na França. Os dois livros, inclusive, foram lidos pelo próprio Marx e chancelados por ele.

No entanto, meu primeiro contato com a obra foi no livro completo, “O Capital”, que é muito mais denso e complicado. Mas fique tranquilo, pois meu intuito, parecido com Lafrague e Cafiero, é facilitar sua vida. Bora lá!

Nota do autor:

Recomendo abordar esta análise despido de conceitos prévios. Minha metodologia de resumo busca mimetizar a voz do autor: eu escrevo como se fosse o próprio autor, mergulhando em sua lógica e defendendo seus pontos de vista para que você compreenda.

 

É importante ressaltar que as afirmações contidas no texto refletem o pensamento do autor e não necessariamente as minhas opiniões pessoais ou convicções ideológicas.

  • Se você já conhece esta linha de pensamento: Desafio-o a ler com criticidade, sem concordar automaticamente com cada linha, evitando o fanatismo.

  • Se você discorda destas ideias: Convido-o a suspender o julgamento imediato para absorver a estrutura lógica proposta.

O objetivo aqui não é converter ou convencer, mas oferecer um material denso para que você teça suas próprias conclusões.

Capítulo 01 (Mercadoria)

A mercadoria é a base do sistema vigente, o capitalismo, onde tudo é transformado em mercadoria. Temos que começar nossa análise, portanto, pela mercadoria.

Uma mercadoria tem duplo valor: o de uso e o de troca. O valor de uso é a questão qualitativa de uma mercadoria. Uma blusa de frio tem seu valor de uso ao sentir frio e precisar dela para se aquecer. Mas e se você for morar no Nordeste, onde o clima é quase sempre calor, que utilidade essa blusa terá para você? Nenhuma. 

Esta mercadoria pode ser sem valor de uso para você, mas tem o valor de troca. O que se precisa fazer é trocá-la por outra mercadoria, como cinco regatas. Antes de se mudar, você irá trocar sua blusa de frio com um amigo seu que têm cinco regatas. Essa relação de valor de uso e de toca entre mercadorias nós já sabemos, então vamos aprofundar um pouco mais.

Valor

Sabemos que a mercadoria tem valor de uso e de troca, mas como conseguimos medir que um casaco tem o mesmo valor de troca de cinco regatas? Calculamos, então, o valor intrínseco entre essas duas, o trabalho. Quaisquer que sejam as mercadorias permutadas, elas vieram do trabalho humano, que tem seu valor. 

Ao trocarmos uma mercadoria pela outra o fazemos tendo em vista a quantidade de trabalho que foi necessário para que aquela mercadoria fosse produzida. Sendo o valor comum entre mercadorias trocadas o trabalho humano, basta medirmos a grandeza desse valor.

A grandeza do valor é medida em tempos. Um trabalhador produz em doze horas o dobro que ele produziria em seis horas; uma mercadoria vale, então, o tempo médio de produção. Não se pode dizer que vinte prego feito em uma hora por uma pessoa habilidosa vale a metade de uma pessoa preguiçosa ou sem habilidades que os fizeram em duas horas. 

O valor do trabalho não é de Pedro ou de João, mas o valor médio necessário para a produção destes pregos. Se as únicas pessoas que produzissem pregos fossem essas duas pessoas, por exemplo, o tempo médio seria em torno de uma hora e meia.

Dinheiro

Entendido o caráter duplo da mercadoria – valor de uso e de troca –, que o valor – o trabalho – é a substancia comum de todas as mercadorias e que as mercadorias são trocadas entre si somente com valores de troca iguais, encontramos outra característica. 

Para facilitar a troca entre mercadorias de diferentes valores, o dinheiro – seja o ouro, a prata ou o bronze -, serve como um valor comum que pode ser trocado por qualquer outra mercadoria. Agora as trocas não são mais diretas, como uma vaca por vinte melancias, mas uma vaca por determinada quantia de dinheiro, e depois por melancias. 

Uma pessoa que tem uma vaca e quer comprar pão não usa mais a relação vaca – melancia – pão; ela compra dinheiro com sua vaca e depois compra o pão, sendo o esquema, agora mercadoria – dinheiro. Está aqui ela:

Mercadoria – Dinheiro – Mercadoria – Dinheiro

M – D – M – D

Conclusão

Se conseguimos delinear o percurso da mercadoria, também o fazemos com o dinheiro. O dinheiro gora tem sua origem e termino de percurso. Essa é a forma do capital.

Se se tem uma certa quantia de dinheiro ou de mercadoria, se tem riqueza. Vamos dar corpo a essa relação e teremos o capital: um organismo que se desenvolve é o que nasce e cresce. Mas como então nasce o capital? A formula delineada anteriormente é acrescentada por outra, mas ainda sendo a mesma. Para o capital nasce e se desenvolver, temos a seguinte formula:

D – M – D1 – M – D2 – M – D3

Isso significa simplesmente o capital crescendo. Como isso acontece é assunto do próximo capitulo.

Capítulo 02 (Nascimento do Capital)

Chegamos em uma nova etapa do entendimento do capital. Cafiero, neste livro, monta uma forma de escrita como se estivesse acompanhando o capitalista em sua empreitada de exercer dominância sobre as mercadorias. Tendo em vista isso, vamos ao capítulo,

Mercadoria

Nós entendemos no capítulo anterior que o capital se acumula na fórmula Dinheiro – Mercadoria – Dinheiro 1 – Mercadoria – Dinheiro 2. Ou seja, o capital se acumula a partir de uma mercadoria que gera valor ao ponto de conseguir ser comprada por um dinheiro e ser vendida por um dinheiro maior. Quanto mais se pensa em lucrar, mais elástico precisa ser a mercadoria a ser comprada para o aumento do capital. Dito isso, a mercadoria que mais é elástica é simples: o trabalho.

Trabalho

Avistamos o homem do dinheiro. Lá vai ele. Ele anda pela cidade com seu dinheiro assim como um andarilho anda com sua sacola, em busca de algo para se alimentar. O homem do dinheiro busca algo para alimentar seu dinheiro, a fim de que ele cresça sem parar.  Como um catador é naturalmente atraído aos fundos de um restaurante em busca de comida ou algo que lhe possa aproveitar, o homem do dinheiro é naturalmente atraído para as fábricas, onde trabalhadores estão prontos para alimentar seu dinheiro.

Lá, ele encontra a mercadoria perfeira: a força de trabalho. Ele não consegue comprar todo o produto inteiramente, já que se fizesse isso de uma vez, o homem trabalhador seria seu escravo. No entanto, o trabalhador aluga sua força de trabalho por algum tempo em troca de sua sobrevivência. Deste modo, ele consegue fazer sua prole crescer e sustentar sua família, e o dinheiro do homem do dinheiro consegue crescer e se multiplicar. 

Salário

Tendo vendido parte de sua mão-de-obra para o patrão, tem de ser sabido qual será o preço diário do salário. Sendo assim, é calculado todos os gastos necessários para alimentação, vestimenta, criação e procriação dos filhos. Esse cálculo é feito para uma empreitada de um ano do trabalhador, e depois dividido por 365, e daí se sabe o preço diário do salário.

O tema aqui debatido é onde principalmente se começam as contradições de Marx de acordo com economistas de linhas de pensamento contrária. Sempre que tiver uma opinião contrária, o texto estará em negrito, onde você poderá ir para o artigo com a proposta diferente.

É interessante notar, também, que este é o mesmo tema também muito criticado pelos leitores de Adam Smith, quando o mesmo tenta entender como se dá a formação dos salários. Temos, aqui no site, o resumo do capítulo onde Smith passa por esses mesmos problemas de Marx. Você pode ter acesso clicando aqui.

Marx assinala que, assim como dito anteriormente que uma mercadoria precisa ser trocada pelo exato valor de outra mercadoria, o preço da mão-de-obra deve ser exatamente igual o preço que o trabalhador precisa para  comprar as coisas necessárias para sua sobrevivência.

Processo de produção

Voltemos ao personagem de nossa trama: o homem do dinheiro. Lá vai ele, agora que conseguiu contratar seu trabalhador, e só precisa de mais duas coisas: dos insumos para o produto e os meios de produção. Daí se dá o processo de produção: 1) a força de trabalho, 2) os insumos e 3) os meios de produção (fábrica).

Neste momento, Cafiero monta a cena do homem do dinheiro indo contente pôr as mãos à obra. O homem do dinheiro vai à frente, com peito aberto, sendo um homem honesto e religioso. Atrás, o seguindo, vai o trabalhador, tímido e, como uma ovelha que sabe seu destino, o trabalhador segue o homem do dinheiro sabendo seu futuro: ser esfolado.

Nascimento do capital

O homem do dinheiro coloca o trabalhador em seu posto de trabalho e explica como tudo vai funcionar. Ele trabalha, mas ao longo do dia vai tentando entender como tudo funciona e como o patrão ganha dinheiro. Ele faz as contas e tenta fechar a conta, mas ela não bate, e percebe que o homem vendeu o produto, após pagar seu salário, os insumos e o maquinário, por um valor maior que o que ele realmente vale. 

E a única mercadoria que é elástica o suficiente para produzir mais do que lhe é pago é seu próprio trabalho. O trabalhador entende, portanto, que o lucro é roubo. Mal ele sabe que aos poucos vai entender que o homem do dinheiro não fica nem um pouco envergonhado por roubar o trabalhador. Marx diz, inclusive, que o lucro é o roubo socialmente aceito.

Bom, se entendemos que nesse processo o homem do dinheiro comprou tudo por, por exemplo, R$ 3.500,00 e vendeu por R$ 3.600,00, sobrou R$ 100,00. Pronto, agora nasce o capital.

Capítulo 03 (Jornada de Trabalho)

O capital mal nasce e já quer se alimentar. O homem do dinheiro, sabendo dessa vontade que está dentro da alma do capital, busca formas de alimentar cada vez mais seu filho. A primeira coisa que ele faz, portanto, é aumentar a jornada de trabalho dos trabalhadores.

Jornada de trabalho

Crianças trabalhando nos EUA no século XX. Fonte: https://hypescience.com

A primeira coisa que o homem do dinheiro pensa para maximizar seu lucro é aumentar a força de trabalho. Ele compra a mão-de-obra do trabalhador por seu valor diário. O dia tem 24 horas, então o dia de trabalho é qualquer coisa entre 0 e 24 horas de trabalho. Mas qual exatamente é este valor? Varia de 6, 8, 10, 12, 14 ou até 16 horas, tudo para bem melhor alimentar o capital.

Cafiero busca, agora, numa espécie de prosa, mostrar a indignação do trabalhador ao ver sua mercadoria sendo vendida abaixo do preço verdadeiro. Se o trabalhador produz 300 e lhe é pago 100, ele está sendo roubado em dois terços, e exige seu valor integral de sua mercadoria. Marx têm vários exemplos em sua obra de como mulheres, crianças e homens trabalhavam excessivamente naquela época, e que não viviam de acordo com seu valor entregue ao capital.

A revolta

Cafiero aponta que Marx usa principalmente a Inglaterra como modelo de suas análises, parte por ser o primeiro país a encontrar o pleno desenvolvimento das manufaturas, parte por ser o lugar com maior quantidade de documentos comprovando tais informações.

As informações sobre como era a qualidade de vida dos trabalhadores se refletem em doenças, mortes e problemas psicológicos causados por excesso de trabaçho. Crianças trabalhavam mais de 16 horas por dia, às vezes sem intervalo para almoço; mulheres, quando haviam eventos importantes e a encomenda deveria estar pronta, poderiam trabalhar até 26 horas consecutivas. 

Nos laudos médicos, costumeiramente os doutores, que chegavam atrasados, colocavam no atestado de óbito a causa da morte como “excesso de trabalho”. O que os trabalhadores deveriam fazer, senão se juntarem sempre que houver uma nova medida do estado ou dos capitalistas, e protegerem suas vidas?

Capítulo 04 (Mercadorias)

O capital não surge do nada. Ele tem um ponto de partida histórico claro: a circulação de mercadorias, que, juntamente com a produção de mercadorias e o comércio desenvolvido, forma os pressupostos para sua emergência. Historicamente, o capital se manifesta inicialmente como dinheiro, riqueza monetária, presente no capital comercial e usurário. E essa gênese se repete diariamente: todo novo capital entra no mercado como dinheiro, necessitando ser transformado em capital através de um processo específico.

A diferença crucial entre dinheiro comum e dinheiro como capital reside em sua forma de circulação.

Os excertos distinguem duas formas fundamentais de circulação de mercadorias:

  • M-D-M (Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria): Esta é a circulação simples de mercadorias. Você vende uma mercadoria (M) para obter dinheiro (D) e, em seguida, usa esse dinheiro para comprar outra mercadoria (M’) que você precisa ou deseja. O dinheiro aqui é meramente um meio de troca que media o processo inteiro. O objetivo final desse ciclo é o consumo, a satisfação de necessidades, ou seja, o valor de uso. O dinheiro, uma vez gasto, está “definitivamente gasto” para o vendedor, que não tem mais relação com ele. Os extremos do ciclo (as duas mercadorias) são qualitativamente diferentes (ex: cereal e roupas). A equivalência de seus valores é uma condição para seu curso normal.

  • D-M-D (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro): Esta é a forma que transforma o dinheiro em capital. O movimento começa com dinheiro (D), que é usado para comprar uma mercadoria (M), e essa mercadoria é então revendida para obter dinheiro novamente (D’). Nesse ciclo, a mercadoria é o que media o curso inteiro. O dinheiro é “adiantado” com a “ardilosa intenção de recapturá-lo”. O refluxo do dinheiro ao seu ponto de partida é condicionado pelo modo como ele é gasto.

O Segredo da Valorização

Se o ciclo D-M-D resultasse na troca de um mesmo valor em dinheiro pelo mesmo valor em dinheiro (D-D, ex: £100 por £100), seria um processo “absurdo e vazio”. O tesoureador, que simplesmente guarda seu dinheiro, seria mais “simples e seguro”. A força motriz e o fim último do ciclo D-M-D é o próprio valor de troca.

A diferença crucial é que, ao final do processo, mais dinheiro é retirado da circulação do que nela foi lançado inicialmente. A forma completa desse processo é D-M-D’, onde D’ = D + ΔD. Esse incremento, ou excedente sobre o valor original, é chamado de mais-valor (surplus value). É esse movimento de valorização que transforma o valor inicialmente adiantado em capital.

O movimento do capital é “interminável” e “desmedido”. O capitalista, como portador consciente desse movimento, tem como finalidade subjetiva a apropriação crescente da riqueza abstrata, não o valor de uso ou o lucro isolado, mas sim o “incessante movimento do lucro” e o “aumento incessante do valor”. O valor se torna o “sujeito automático do processo”, que, sob sua variação constante de forma (ora dinheiro, ora mercadoria), altera sua própria grandeza e se autovaloriza. É o “dinheiro que cria dinheiro – money which begets money”. A fórmula D-M-D’ é a fórmula geral do capital, aplicável tanto ao capital comercial quanto ao industrial e, de forma abreviada, ao capital a juros.

As Contradições da Fórmula Geral

A fórmula D-M-D’ “contradiz todas as leis” anteriormente investigadas sobre a natureza da mercadoria, do valor e do dinheiro. Como uma “diferença puramente formal” como a inversão das fases de compra e venda poderia magicamente criar mais valor?

Os excertos argumentam que a criação de mais-valor não pode ser explicada pelos mecanismos da circulação pura:

  • Troca de Equivalentes: A circulação pura de mercadorias pressupõe a troca de equivalentes. “Onde há igualdade, não há lucro”. Se houver ganho em valor de uso para ambas as partes (ex: vinho por cereal), não há aumento no valor de troca. O valor da mercadoria apenas muda de forma (mercadoria para dinheiro, e dinheiro para outra mercadoria), sem alteração em sua grandeza.

  • Vender acima ou comprar abaixo do valor: Se um vendedor ganha £10 vendendo mais caro, ele perde £10 como comprador de outro produto vendido mais caro. No final, o resultado é o mesmo que vender pelo valor. A “soma do valor em circulação não pode ser aumentada por nenhuma mudança em sua distribuição”. A totalidade da classe capitalista não pode se aproveitar de si mesma. O argumento de Condillac de que o comércio adiciona valor porque os produtos valem mais para o consumidor do que para o produtor confunde valor de uso com valor de troca.

  • Capital Comercial e Usurário: Embora pareçam gerar lucro na circulação (D-M-D’), os excertos afirmam que é “impossível explicar a transformação de dinheiro em capital… a partir da própria circulação”. O capital comercial aparece como impossível se baseado na troca de equivalentes. O capital usurário (D-D’) é visto como “o mais contrário à natureza” por gerar dinheiro de dinheiro sem mediação. Essas são formas derivadas que não criam valor por si só na circulação.

A conclusão é enfática: “A circulação ou a troca de mercadorias não cria valor nenhum”.

O Paradoxo e a Saída

Se o mais-valor não pode ter origem na circulação, ele também “tampouco pode não ter origem na circulação”. Fora da circulação, um produtor pode criar valores adicionando seu trabalho a uma mercadoria (ex: couro em botas), mas não pode fazer com que o valor original “valorize a si mesmo” ou gere um excedente.

Assim, o problema se coloca: o possuidor de dinheiro, ainda um capitalista em estado “larval”, deve comprar e vender mercadorias por seus valores e, ainda assim, obter mais valor.

A solução reside na descoberta de uma mercadoria peculiar no mercado, cujo próprio valor de uso possuísse a característica de ser fonte de valor, cujo próprio consumo fosse, portanto, objetivação de trabalho e, consequentemente, criação de valor. Essa mercadoria é a capacidade de trabalho, ou força de trabalho.

A Força de Trabalho como Mercadoria

Por força de trabalho, entende-se o “conjunto [Inbegriff] das capacidades físicas e mentais que existem na corporeidade [Leiblichkeit], na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento sempre que produz valores de uso de qualquer tipo”. Condições Históricas para sua Existência como Mercadoria: Para que a força de trabalho se torne uma mercadoria, duas condições essenciais devem ser atendidas:

    1. Liberdade do Trabalhador: Seu possuidor deve ser “livre proprietário de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa”. Ele não pode vender-se inteiramente (tornar-se escravo), mas apenas dispor temporariamente de sua força de trabalho.

    2. Ausência de Meios de Produção e Subsistência: O trabalhador deve ser “livre e solto, carecendo absolutamente de todas as coisas necessárias à realização de sua força de trabalho” e de outros meios de subsistência. Ele não tem “outra mercadoria para vender”.

Essas condições não são naturais, mas sim o “resultado de um desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas”, que destruíram formas anteriores de produção social. O capital, ao surgir, anuncia uma “nova época no processo social de produção”.

Como qualquer mercadoria, o valor da força de trabalho é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção e reprodução. Isso inclui:

    • O valor dos meios de subsistência necessários para manter o trabalhador vivo, saudável e em sua condição normal de vida.

    • Os meios de subsistência para a reprodução da classe trabalhadora, ou seja, para os filhos do trabalhador, garantindo a perpetuação dessa “peculiar raça de possuidores de mercadorias” no mercado.

    • Os custos de formação ou treinamento para que a força de trabalho adquira as habilidades necessárias para um determinado ramo de trabalho.

    • Uma peculiaridade é que a determinação de seu valor contém um “elemento histórico e moral”, dependendo do grau de cultura e dos costumes de um país.

A força de trabalho é única porque seu valor de uso (sua capacidade de criar valor) só se manifesta em seu consumo, ou seja, no processo de produção. Diferente de outras mercadorias onde a venda e a transferência de valor de uso são simultâneas, aqui há um intervalo de tempo. Por isso, a força de trabalho é geralmente paga depois de já ter funcionado, o que significa que o trabalhador adianta um crédito ao capitalista.

Da Circulação à Produção

A esfera da circulação, onde a compra e venda da força de trabalho acontece, é descrita como um “verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem”: um reino de liberdade, igualdade, propriedade e interesse próprio. Nela, compradores e vendedores se encontram como iguais juridicamente.

No entanto, ao abandonar essa esfera e seguir os possuidores de dinheiro e de força de trabalho, entramos no “terreno oculto da produção”. Aqui, a “fisiognomia” das “dramatis personae” muda dramaticamente. O antigo possuidor de dinheiro agora se apresenta como capitalista, e o possuidor de força de trabalho, como seu trabalhador. O capitalista, “com um ar de importância, confiante e ávido por negócios”, e o trabalhador, “tímido e hesitante, como alguém que trouxe sua própria pele ao mercado e, agora, não tem mais nada a esperar além da… despela”.

É nesse “terreno oculto” que o “segredo da criação de mais-valor tem, enfim, de ser revelado”. A valorização não ocorre na troca, mas no processo de consumo da mercadoria força de trabalho.

Capítulo 05 (Processo de troca)

Você já parou para pensar na complexa dinâmica por trás da produção de tudo o que consumimos? Nossas fontes nos oferecem uma perspectiva detalhada sobre dois conceitos fundamentais: o processo de trabalho e o processo de valorização/troca. Compreender esses mecanismos é crucial para entender como os produtos ganham valor e como o capital se reproduz.

Processo de Trabalho

O processo de trabalho é, em sua essência, a utilização da força de trabalho – ou seja, o próprio trabalho. Ele representa a interação do ser humano com a Natureza, onde o homem, através de sua ação, media, regula e controla seu metabolismo com o ambiente natural. Ao atuar sobre a Natureza externa e modificá-la, o homem também modifica sua própria natureza.

O que distingue o trabalho humano?
Ao contrário das primeiras formas instintivas de trabalho observadas em animais (como a aranha tecelã ou a abelha construtora de favos), o trabalho humano se caracteriza por ser concebido idealmente na cabeça do trabalhador antes de ser realizado materialmente. No final do processo, obtém-se um resultado que já existia na imaginação do trabalhador. Isso exige uma vontade orientada a um fim e atenção constante durante todo o tempo de trabalho.

Elementos Simples do Processo de Trabalho:
Os elementos básicos do processo de trabalho são:

  • A atividade orientada a um fim (o trabalho em si).

  • Seu objeto de trabalho: a matéria natural sobre a qual o trabalho atua. Pode ser algo preexistente na natureza, como o peixe, a madeira ou o minério. Quando o objeto já foi “filtrado” por trabalho anterior, ele se torna matéria-prima (por exemplo, o minério já extraído que será lavado ou a semente na agricultura). É importante notar que um mesmo produto pode servir como matéria-prima para diferentes processos.

  • Seus meios de trabalho: as coisas que o trabalhador coloca entre si e o objeto de trabalho para conduzir sua atividade. Eles permitem que o trabalhador utilize as propriedades mecânicas, físicas e químicas das coisas para alcançar seu objetivo. Exemplos incluem a pedra (usada para raspar, prensar), e historicamente, instrumentos de pedra, madeira, osso e até animais domesticados. A utilização e criação de meios de trabalho caracterizam o processo de trabalho especificamente humano, tanto que o homem é definido como um “animal que faz ferramentas” (toolmaking animal). Os meios de trabalho não apenas medem o desenvolvimento da força de trabalho humana, mas também indicam as condições sociais da produção. Além disso, o processo de trabalho também conta com condições objetivas mais amplas, como edifícios, canais e estradas.

O processo de trabalho se extingue no produto, que é um valor de uso, uma matéria natural adaptada às necessidades humanas através da transformação. Nesse produto, o trabalho se une ao seu objetivo e se torna objetivado. Quando vistos do ponto de vista do produto, o objeto e os meios de trabalho são chamados de meios de produção, e o trabalho em si, de trabalho produtivo. Produtos de processos anteriores se tornam meios de produção em novos processos, agindo como “condições” para o trabalho vivo.

Consumo Produtivo: o trabalho, ao devorar seu objeto e meios, é um processo de consumo, denominado consumo produtivo. Este se diferencia do consumo individual por consumir os produtos como meios de subsistência do próprio trabalho, não do indivíduo vivo.

O processo de trabalho, em seus elementos simples, é uma condição natural e eterna da vida humana, independente de qualquer forma social específica.

Processo de troca

Quando o processo de trabalho é realizado sob o controle do capitalista, ele adquire características peculiares:

  • Controle Capitalista: o trabalhador executa o trabalho sob o controle do capitalista, que assegura a ordem, o uso adequado dos meios de produção e a não desperdício de matéria-prima.

  • Propriedade do Produto: o produto final pertence ao capitalista, não ao trabalhador direto. Ao comprar a força de trabalho, o capitalista adquire o direito de utilizá-la durante a jornada, incorporando esse “fermento vivo” aos elementos “mortos” (meios de produção) que já lhe pertencem.

Para o capitalista, a produção de valores de uso (fio, botas) não é um fim em si mesma. O objetivo principal é produzir uma mercadoria cujo valor de troca seja superior à soma dos valores das mercadorias necessárias para produzi-la (meios de produção e força de trabalho). Em outras palavras, o capitalista busca gerar mais-valia.

O processo de produção de mercadorias é, portanto, uma unidade do processo de trabalho e do processo de formação de valor.

Como o valor é criado?
O valor de qualquer mercadoria é determinado pelo quantum de trabalho materializado em seu valor de uso, ou seja, pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. Isso inclui o trabalho contido nos meios de produção (matéria-prima e meios de trabalho) e o trabalho adicionado pela força de trabalho viva.

Condições para a Criação de Valor:
Para que os meios de produção transfiram seu valor para o produto, duas condições devem ser preenchidas:

  1. Devem ter sido realmente utilizados na produção de um valor de uso (por exemplo, algodão e fuso devem se transformar em fio).

  2. Somente o tempo de trabalho socialmente necessário deve ser aplicado. Isso significa que, mesmo que o capitalista use meios mais caros ou o trabalhador leve mais tempo devido a condições anormais (como má matéria-prima), apenas o tempo de trabalho socialmente exigido será contabilizado no valor final.

A Natureza do Trabalho como Criador de Valor:
No processo de formação de valor, o trabalho é visto sob uma ótica puramente quantitativa, como mero dispêndio de força vital, sem se distinguir pela sua qualidade ou conteúdo específico. É por essa identidade que diferentes trabalhos (plantar algodão, fazer fusos, fiar) podem se somar para formar o valor total de uma mercadoria.

O "Segredo" do Capitalismo

A chave da valorização reside na diferença entre o valor de troca da força de trabalho e o valor de uso que ela é capaz de gerar. O capitalista paga o valor de um dia da força de trabalho, que é determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzir os meios de subsistência diários do trabalhador (por exemplo, 6 horas de trabalho equivalem a 3 xelins). No entanto, a força de trabalho pode operar, ou seja, trabalhar, por uma jornada inteira (12 horas, por exemplo).

Se em 6 horas o trabalhador adiciona 3 xelins de valor ao produto (por exemplo, fiando 10 libras de algodão), em 12 horas ele adicionará o dobro de valor. O valor total do produto (por exemplo, 20 libras de fio) será composto pelo valor dos meios de produção (algodão e fusos, que custaram 27 xelins) mais o valor adicionado pelo trabalhador (12 horas de trabalho = 6 xelins), totalizando 30 xelins.

Assim, o valor do produto (30 xelins) ultrapassa o valor do capital adiantado (27 xelins), gerando uma mais-valia de 3 xelins. Este é o ponto onde o dinheiro se transforma em capital. Embora a compra e venda ocorram na esfera da circulação (equivalente por equivalente), a criação da mais-valia ocorre fora da circulação, na esfera da produção, através do consumo da força de trabalho.

O processo de valorização é, em essência, um processo de formação de valor prolongado além de um certo ponto – o ponto em que o valor da força de trabalho é substituído.

Trabalho Complexo vs. Trabalho Simples:
A fonte também aborda a diferença entre trabalho simples e trabalho mais complexo (superior). O trabalho complexo é a exteriorização de uma força de trabalho que envolve custos de formação mais altos e, portanto, tem um valor mais elevado. Consequentemente, ele se objetiva em valores proporcionalmente mais altos no mesmo período de tempo. No entanto, em qualquer processo de formação de valor, o trabalho complexo é sempre reduzido a múltiplos de trabalho social médio para fins de cálculo.

Capítulo 06 (O Capital)

Você já se perguntou como o valor é realmente criado e transferido na produção de algo? Os conceitos de capital constante e capital variável são essenciais para entender a dinâmica da criação de valor. As fontes explicam que os diferentes fatores de um processo de trabalho participam de maneiras distintas na formação do valor de um produto.

Dupla Natureza do Trabalho na Criação de Valor

No coração da formação de valor está o trabalhador. Ele não só adiciona novo valor ao objeto de trabalho, mas também conserva o valor preexistente dos meios de produção. Como isso é possível? A resposta está na dualidade do trabalho:

1. Trabalho Abstrato, Geral e Social: É a forma pela qual o trabalhador adiciona novo valor. Este novo valor é determinado pela quantidade de tempo de trabalho despendido, independentemente do tipo específico de trabalho (seja fiar, tecer ou forjar). Por exemplo, um fiandeiro adiciona valor não por ser trabalho de fiação, mas por ser trabalho abstrato, social geral, e a grandeza do valor é determinada pelo tempo que dura.
2. Trabalho Concreto, Específico e Útil: É a forma pela qual o trabalhador conserva ou transfere o valor existente dos meios de produção para o produto. Através de sua atividade produtiva específica e orientada a um fim (como fiar o algodão), o trabalhador ressuscita os meios de produção, tornando-os fatores do processo de trabalho e combinando-os para formar um novo produto. Sem o trabalho específico de fiar, por exemplo, o algodão não seria transformado em fio, e seus valores não seriam transferidos.

Essa dualidade é crucial. Uma invenção que permite fiar a mesma quantidade de algodão em menos tempo demonstra que, enquanto menos trabalho novo é agregado, uma quantidade maior de valor em matéria-prima pode ser conservada e transferida. Da mesma forma, se o valor da matéria-prima muda (e.g., preço do algodão sobe ou cai), o mesmo tempo de trabalho adiciona o mesmo novo valor, mas o valor transferido do algodão ao fio será diferente.

Capital Constante

A parte do capital convertida em meios de produção – como matéria-prima (algodão), matérias auxiliares (óleo, carvão, tinta) e meios de trabalho (máquinas, ferramentas, edifícios) – é chamada de capital constante.

Como o valor do capital constante é tratado? Seu valor não muda de grandeza no processo de produção; ele é conservado e transferido para o produto.

  • Meios de Produção Consumíveis: Materiais como algodão, carvão ou tinta perdem sua forma independente e sua figura original de valor de uso, mas seu valor é transferido para o novo produto. Se houver desperdício normal e inseparável do processo (como “devil’s dust” do algodão), o valor desse desperdício também entra no valor do produto final.

  • Meios de Trabalho (Instrumentos): Máquinas, ferramentas e edifícios mantêm sua forma original durante o processo de trabalho, mas seu valor de uso é gradualmente consumido e seu valor de troca transferido ao produto ao longo de sua vida útil (depreciação). Uma máquina pode entrar em sua totalidade no processo de trabalho, mas apenas em parte no processo de valorização (a cada dia, uma fração de seu valor é transferida).

  • Limitação do Capital Constante: Meios de produção nunca podem agregar ao produto mais valor do que já possuem. Eles servem como formadores de valor de uso, mas só transferem valor se já tiverem valor próprio (i.e., se forem produtos do trabalho humano). Elementos naturais (terra, vento, água, ferro na jazida) não transferem valor.

  • Variações de Valor: Mudanças no valor do capital constante (por exemplo, aumento do preço do algodão ou desvalorização de uma máquina devido a uma nova invenção) não se originam no processo de produção em que são utilizados, mas sim nos processos que os produzem.

Capital Variável

A parte do capital convertida em força de trabalho é chamada de capital variável. Essa é a parte do capital que muda seu valor no processo de produção.

  • Criação de Novo Valor: A força de trabalho em ação não apenas reproduz seu próprio equivalente de valor (o custo da força de trabalho, como o salário do trabalhador), mas também produz um excedente, uma mais-valia.

  • Mais-Valia: É o valor que excede o valor dos componentes consumidos do produto (meios de produção e força de trabalho). É o único valor original que surge de dentro do processo de produção.

  • O “Dom Natural” do Trabalho Vivo: O trabalho vivo tem um “dom natural” de conservar o valor preexistente enquanto agrega valor novo. Esse dom não custa nada ao trabalhador, mas rende muito ao capitalista, sendo a conservação do valor preexistente do capital. As crises econômicas, por exemplo, tornam esse “dom gratuito” mais perceptível aos capitalistas.

Em suma, enquanto o capital constante transfere valor, o capital variável, por meio da força de trabalho, é o único capaz de criar novo valor e, consequentemente, mais-valia. Essa distinção funcional é fundamental para entender a dinâmica da acumulação de capital.

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