Resenha: A Morte de Ivan Ilitch – Liev Tolstói

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Tempo de leitura: 10 minutos
Ivan é medíocre. É um soco no estômago me ver representado por ele.” Li essa frase em um comentário de um vídeo relacionado ao livro A Morte de Ivan Ilitch. Não conheço o autor da frase, mas ela representa bem todo sentimento que tive com essa obra
 

A tese central da obra é falar sobre a vida e morte de Ivan, homem bem sucedido, de boa aparência, bela família (aparentemente), e com profundos traços narcisistas. De início, antes de abrir o livro, você sabe que o principal personagem morreu; quando lê o primeiro capítulo, observa como foi seu velório; e no último capítulo, ele finalmente morre. Mas o importante não é isso. Como disse, antes de abrir o livro, já sabe que ele morreu.

Como ouvi de um amigo certa vez: “o jeito que morremos não importa muito, o que vale é como foi nossa vida“. E a vida de Ivan Ilitch foi bela, com boa aparência. A vida de Ivan Ilitch foi medíocre.

O principal problema que ricos ou pobres enfrentam na vida é o fato de que um dia morreremos, e que não sabemos exatamente o que significa isso. Nem com teologia, nem com ciência, Tolstói nesse livro trata dessa passagem da vida para a morte de forma reflexiva, material, abordando temas cotidianos, filosóficos, mas não teológicos ou metafísicos.

A linguagem é perfeita, em minha forma de enxergar a literatura, porque não fala como um chato que está escrevendo um livro com palavras rebuscadas para impressionar quem lê. Tolstói conta como um narrador, parecendo até que está falando de alguém que ele conhecia. Tive a impressão de que era Deus quem estava contando sobre a vida de uma pessoa. Achei fantástico, e por isso, em menos de 3 horas terminei de ler o livro. Super coeso e simples de ler, apesar de extremamente profundo e confrontador.

Personagens

O livro começa falando de seu entrerro. Com exceção de sua esposa Praskovia e seu filho mais novo, poucas pessoas têm tristeza real pela morte do falecido. Um deles, um tremendo de um babaca, estava no enterro, com um sorriso diabólico no rosto, insistindo a outro personagem para saírem dali e e jogarem um jogo de baralho com colegas de trabalho de Ivan, que nem estavam na cerimônia.

A parte mais importante da trama é o que mais me intriga: o infeliz é a representação de você que está lendo; é a representação de quem usa Instagram no século XI, mais de 200 anos depois dessa obra. É a representação de um homem que fez o que a sociedade pediu, o que os colegas queriam que ele fosse, o que ele mesmo se tornou: uma pessoa de aparências.

O livro não foca em tantos personagens paralelos. O que faz esse livro ser tão bacana é que ele vira uma conversa entre o personagem Ivan Ilitch e você, o leitor.

Liev Tolstói, escritor de A Morte de Ivan Ilitch
Liev Tolstói fotografado em Iasnaia Poliana por Sergei Mikhailovitch

Análise crítica

Ele se formou em Direito, seguiu uma bela carreira, pisou em pessoas para subir de cargo, foi um excelente profissional. Deu festas, cresceu profissionalmente, comprou belos tecidos de cortina e poltronas para sua bela casa. Ele se casou, teve muitos filhos, perdeu alguns. É uma vida comum, mas não simplesmente comum: é medíocre.

Não que os fatos da vida dele tenham sido comuns, até porque quase todas são. A mediocridade dele se tornou evidente pelo fato de que ele nunca foi ele. Nenhum leitor desse livro sabem quem foi Ivan Ilitch além de seu excelente trabalho nos tribunais, suas festas bem organizadas e sua casa bonita. A esposa era sua inimiga, seus filhos beiravam a indiferença ao pai. Ivan Ilitch nunca teve amigos reais.

A principal lição que o personagem me deu foi, em certa medida, parecida com a que o personagem Arthur Morgan, do jogo Red Dead Redemption, teve ao final do jogo. Elucidando para quem nunca viu esse jogo: Arthur, o personagem principal, é um bandido que fez várias coisas erradas na vida, como matar pessoas, roubar e sequestrar. A temática do jogo é essa. No entanto, certa vez, cobrando as dívidas de uma pessoa que tinha pego dinheiro emprestado a juros altos com um colega de bando de Arthur, esse personagem, que é assassinado no ato da cobrança da divida, espirra no rosto de Arthur. Algum tempo depois, ele contrai pneumonia, e é a razão de sua morte no final do jogo.

Em certa parte, cavalgando no mapa, um amigo de Arthur diz a ele que estar morrendo e saber a data de sua morte não é algo ruim, mas, na verdade, uma dádiva. Ele, que sempre foi um bandido, pôde, sabendo que seu fim se aproximava, mudar o seu legado na Terra, e ter boas ações para fazer sua ida ao além ser algo que as pessoas sintam falta, de alguma forma.

Ivan Ilitch, por outro lado, não consegui ter essa redenção, apenas ficando cada vez mais irritado, odioso, odiado. Arthur sempre lidou com a morte, e sabia que podia acontecer a qualquer hora, e teve vários momentos de sua vida que quase morreu. Por outro lado, Ivan sempre foi apegado à vida, às boas aparências, aos momentos bonitos da vida. Ivan Ilitch é medíocre. É um soco no estômago me ver representado por ele. Uma boa passagem disso é quando ele fala sobre a morte utilizando um exemplo de Caio, em um exercício de lógica:

Reflexão final

Embora Ivan Ilitch tenha tido uma vida invejável à primeira vista, algo aconteceu de forma ridícula em meu entendimento atual: ele nunca teve personalidade além do que o emprego, a faculdade e o circulo social que o condicionou. Nunca teve ideias originais, nunca tomou partido por nada, e sua vida foi rasa. Todo pensamento que pode ter sobre a vida foi triste, com exceção de sua infância, segundo ele mesmo.

Ele fez o que muitos fazem: nunca quis casar; se apaixonou de repente, e se casou. Os primeiros anos do casamento foram felizes; o restante, insuportável. Vivia casado e com filhos por dois motivos: ter uma família era o que a sociedade onde ele estava inserido esperava, e fazer sexo casualmente com sua esposa o gerava pequenos prazeres, e consequentemente, filhos. Sim, esse é o único motivo.

Fugir do inferno que virou a vida dele foi o trabalho, e nisso se deu gigantesca parte de sua vida: o trabalho nos tribunais. Ao final do livro, ele mesmo pergunta: “Pra quê?”. Pra que ele levou a vida sempre atarefado, comprometido, obcecado pelo trabalho e as boas aparências?  Pra nada, eu diria. Vivia brigando com a esposa; nunca se separou. Vivia dando festas e curtindo com amigos; em seu velório, seus amigos estavam discutindo sobre como e quem tomaria a vaga aberta em seu emprego no tribunal. Bela vida de merda, que em menos de 1 hora após sua morte, não existe nem o sentimento de sua partida.

Ele viveu buscando boas bebidas, boa aparências e uma boa vida. Foi um narcisista, como muitos são, incluindo eu. Após muitas felicidades e boas festas, trabalhando muito e não se importando em nada com sua família, com sorrisos falsos e escapando sempre dos conflitos e amores, conseguiu o que queria: tão sozinho e insignificante quanto foi sua vida, partiu desse mundo. Sem significado, sem amores, sem despedidas. “Ivan é medíocre. É um soco no estômago me ver representado por ele.”

FAQ

A tese central da obra de Liev Tolstói é expor a inevitabilidade da morte através da desconstrução de uma vida baseada inteiramente em aparências, status social e traços narcisistas. O livro funciona como uma reflexão profunda sobre como o apego excessivo às convenções da sociedade pode anular a verdadeira identidade de um homem.

Ao contrário de jornadas de redenção clássicas da cultura pop, onde o personagem tem tempo para mudar o seu legado, a percepção de Ivan Ilitch sobre o vazio de sua existência ocorre de forma agonizante e tardia. O desespero toma conta do personagem ao perceber que passou a vida inteira obcecado pelo trabalho e pelas aparências para, no fim, morrer completamente sozinho e sem significado.

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Nixon

Economista, entusiasta em teoria econômica e preguiçosos profissional

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