O Que Foi a Revolução Inglesa? Resumo Completo

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Ocorrida entre 1640 e 1688, a Revolução Inglesa foi o conjunto de conflitos políticos, religiosos e militares que destruiu o absolutismo monárquico na Inglaterra e instaurou a primeira Monarquia Parlamentar da Europa, que se mantém até hoje.

Mais de um século antes da Revolução Francesa, os ingleses já haviam julgado e decapitado um rei absolutista, experimentado uma república sob ditadura militar e, finalmente, subordinado a Coroa à autoridade das leis do Parlamento.

Esse processo não foi apenas um embate de ideias; foi uma transformação total das bases socioeconômicas do país. A Revolução Inglesa removeu de vez o feudalismo, consolidou o direito de propriedade privada, fortaleceu a burguesia comercial e a classe dos proprietários rurais (gentry) e abriu caminho para o surgimento do capitalismo moderno e da Revolução Industrial.

No início do século XVII, a morte da rainha Elizabeth I encerrou a dinastia Tudor e levou ao trono seu primo, Jaime I, dando início à dinastia Stuart. Diferente dos Tudors, que governavam negociando com as elites locais, os reis Stuarts (Jaime I, e depois seu filho Carlos I) eram defensores convictos da Teoria do Direito Divino dos Rei. Essa ideia dizia que o poder era vindo diretamente de Deus e não deve satisfações a homens ou parlamentos. Bizarro.

Essa postura colidiu de frente com as transformações sociais que a Inglaterra vivenciava. Naquela época teve o avanço do movimento dos cercamentos das terras comunais, que transformou áreas rurais em pastos para ovelhas e produção voltada ao mercado. Isso fortaleceu a gentry (a nobreza rural gentry) e a burguesia mercantil urbana, que exigiam menor intervenção do Estado na economia e o fim dos monopólios régios. (Essa coisa da gentry é debatida de forma bem aprofundada no livro Origem da Familia, Propridade e Estado, de Engels).

Para financiar seus gastos e guerras, Carlos I aumentava impostos sem aprovação parlamentar (como o Ship Money, taxa que antes era cobrada apenas na cidades litorâneas, começou ser em todo o país).

A Inglaterra era oficialmente anglicana, mas a maioria dos mercadores e pequenos proprietários havia aderido ao puritanismo. Os puritanos viam o anglicanismo da Coroa como uma versão disfarçada do catolicismo e defendiam uma Igreja independente do controle do rei. (Até hoje o anglicanismo é a religião oficial da Inglaterra, e os puritanos foram os que tiveram forte influência na formação dos Estados Unidos, e depois exportado para o Brasil com o movimento Pentecostal. Interessante, né?).

Em 1628, o Parlamento forçou Carlos I a assinar a Petição de Direito, que proibia a criação de impostos sem o consentimento dos parlamentares. O rei respondeu dissolvendo o Parlamento e governando de forma absoluta por 11 anos (o “Governo Pessoal”).

Isso aconteceu 400 anos atrás e ainda hoje debatemos sobre os limites do estado e como frear o autoritarismo. Ou seja, o problema talvez não esteja no regime político ser democrático ou monárquico, mas nos incentivos e feios do poder, que provavelmente não serão resolvidos nem pela democracia nem pela monarquia.

Guerra Civil Inglesa (1642-1651)

A Guerra Civil foi o ápice da crise, que eclodiu de vez quando a Escócia calvinista se revoltou contra as imposições religiosas de Carlos I. Precisando de dinheiro para conter a rebelião, o rei foi obrigado a convocar o Parlamento em 1640. Os parlamentares, liderados por figuras puritanas, se recusaram a liberar verbas sem que o absolutismo fosse desmontado. Carlos I tentou invadir o Parlamento para prender os líderes da oposição, dando início à Guerra Civil. Um completo caos.

O conflito dividiu a nação em dois campos: 1) os Cavaleiros, que eram apoiadores do rei, compostos pela alta nobreza, proprietários feudais e alguns anglicanos e católicos; e 2) os Cabeças Redondas (eles eram chamados assim por causa do corte de cabelo curto, que contrastava com as perucas longas da nobreza, e também pelo capacete deles, que era arredondado), que eram apoiadores do Parlamento, formados pela burguesia, a gentry, pequenos comerciantes e camponeses puritanos.

A reviravolta no conflito veio quando o puritano Oliver Cromwell organizou o New Model Army. Diferente das forças tradicionais, a promoção no exército parlamentar era baseado na meritocracia e no fervor religioso, e não na origem nobre.

A vitória do Parlamento foi esmagadora. Carlos I foi capturado, julgado por traição contra seu próprio povo e decapitado em janeiro de 1649. Pela primeira vez na história europeia, a santidade do rei absoluto havia sido destruída pela força da lei e das armas.

A República de Cromwell (1649–1660)

Com a execução do rei, a monarquia e a Câmara dos Lordes foram abolidas, e a Inglaterra proclamou uma República (o que conhecemos como Commonwealth). Cromwell assumiu o controle do país, mas logo enfrentou oposição tanto de monarquistas quanto de grupos radicais de esquerda que surgiram no exército. De um lado tinham os Levellers, que defendiam o sufrágio universal masculino, a igualdade jurídica e a liberdade religiosa. E do outro lado tinham os Diggers, que radicalizavam a pauta exigindo a reforma agraria e a abolição da propriedade privada da terra.

Cromwell esmagou impiedosamente esses movimentos radicais, assegurando o predomínio dos interesses dos grandes proprietários e da burguesia.

Em 1651, Cromwell promulgou os Atos de Navegação, uma das medidas econômicas mais importantes da história britânica. A lei determinava que qualquer mercadoria importada pela Inglaterra deveria ser transportada em navios ingleses ou do país de origem do produto. Isso quebrou o monopólio holandês do transporte marítimo, provocou uma guerra comercial vitoriosa contra a Holanda e transformou a Marinha Britânica na maior potência naval do mundo.

Apesar dos sucessos econômicos, o governo interno degenerou em uma ditadura puritana militar. Cromwell dissolveu o próprio Parlamento e autoproclamou-se “Lord Protetor” vitalício. O cotidiano da população foi submetido a um rigor religioso estrito: teatros foram fechados, festas populares foram proibidas e a vida pública passou a ser vigiada.

A Restauração Stuart (1660–1688)

Quando Oliver Cromwell morreu em 1658, seu filho Richard assumiu o poder, mas não tinha autoridade nem habilidade política para manter o exército e o Parlamento unificados. Mais uma vez sob ameaça de uma nova guerra civil ou de oposição popular, o Parlamento decidiu restaurar a dinastia Stuart.

Em 1660, Carlos II, que era filho do rei decapitado, assumiu o trono. Uma bagunça total. Ele governou com prudência, sabendo das limitações que o Parlamento impunha. No entanto, seu irmão e sucessor, Jaime II, assumiu em 1685 e adotou uma postura abertamente absolutista e se converteu ao catolicismo, nomeando católicos para cargos estratégicos do governo e do exército. A gota d’água foi quando nasceu um herdeiro direto de Jaime II, ameaçando perpetuar uma dinastia católica e absolutista na Inglaterra.

A Revolução Gloriosa (1688)

Para evitar um novo banho de sangue como o da Guerra Civil, as elites inglesas tramaram uma solução diplomática. Convidaram o príncipe holandês Guilherme de Orange, protestante e casado com Maria Stuart (filha protestante de Jaime II), para invadir a Inglaterra e assumir o trono. 

Isso nos remete à profecia bíblica de Daniel 2:43 que diz: “Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro se não mistura com o barro”. Houveram inúmeras tentativas de unificação europeia por casamentos, mas nunca nenhuma deu certo.

Continuando, em 1688 Guilherme desembarcou na Inglaterra com suas tropas. Abandonado pelos próprios generais e sem apoio popular, Jaime II fugiu para a França. Por ter sido uma transição de poder praticamente sem derramamento de sangue na capital, o evento foi batizado de Revolução Gloriosa.

Antes de serem coroados, Guilherme de Orange e Maria Stuart foram obrigados a assinar a Declaração de Direitos (Bill of Rights) em 1689. Esse documento refundou o Estado inglês. Nele, foi proibido de o rei de criar impostos, revogar leis ou manter um exército permanente sem a aprovação do Parlamento; garantiu a liberdade de expressão dentro do Parlamento e a realização de eleições livres periódicas; estabeleceu que a Coroa não poderia ser ocupada por um católico; consolidou a frase seminal da política britânica: “O Rei reina, mas não governa”. Ou seja, a Revolução Inglesa acabou com a monarquia e instaurou a democracia.

Esse tema debatemos com muito mais profundidade aqui no site, nos primeiros capítulos do livro Democracia, o deus que falhou, de Hans Hermann Hoppe.

Conclusão

A Revolução Inglesa foi o acontecimento que encerrou definitivamente o absolutismo no Reino Unido e estabeleceu o modelo de Monarquia Parlamentar Constitucional que vigora até hoje (mas que é na verdade uma democracia, e os reis não tem mais poder real). Do ponto de vista econômico, a subordinação do rei ao Parlamento significou que o Estado britânico passou a ser gerido de acordo com a lógica do desenvolvimento mercantil, garantindo estabilidade jurídica à propriedade privada e incentivo à livre iniciativa.

Foi essa estrutura institucional flexível e voltada ao mercado que permitiu à Inglaterra, poucas décadas mais tarde, reunir o capital e a estabilidade política necessários para liderar a Revolução Industrial e espalhar as ideias do Iluminismo e o capitalismo ao mundo inteiro.

FAQ

A principal causa foi o conflito entre o absolutismo dos reis da dinastia Stuart (que queriam governar sem prestar contas) e o Parlamento inglês (dominado pela burguesia e pela nobreza rural puritana), acrescido de fortes tensões econômicas (impostos abusivos) e religiosas (anglicanismo vs. puritanismo).

Ela é chamada de “Gloriosa” porque alcançou a deposição do rei absolutista Jaime II e a substituição pelo protestante Guilherme de Orange quase sem derramamento de sangue ou guerras abertas em Londres, diferentemente da sangrenta Guerra Civil ocorrida décadas antes.

O Bill of Rights (Declaração de Direitos) limitou os poderes do rei e transferiu o poder legislativo e fiscal supremo para o Parlamento, estabelecendo a Monarquia Parlamentar e garantindo liberdades individuais e jurídicas na Inglaterra.

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