Resumo: História Econômica Geral – Completo

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Resumo: História Econômica Geral – Completo

Tempo de leitura: 18 minutos

A História Econômica é definida de forma geral como o estudo dos esforços humanos ao longo dos séculos para satisfazer suas necessidades materiais, sendo uma especialidade da História que foca na atividade de suprir essas necessidades na perspectiva da mudança ao longo do tempo.

No entanto, a disciplina é marcada por diversas correntes com divergências teóricas e metodológicas significativas, o que significa que diferentes “histórias econômicas gerais” podem ser elaboradas sobre os mesmos processos históricos. Essas divergências surgem porque historiadores, mesmo buscando isenção, selecionam fatos e aplicam conceitos prévios que levam a distintas explicações e interpretações dos eventos.

História Econômica Geral

O livro em questão aborda algumas das principais correntes da História Econômica, explorando os fundamentos da teoria econômica neoclássica (incluindo a “New Economic History” ou Cliometria e a História Econômica Institucional), da Escola dos Annales e do marxismo.

Cronologicamente, o estudo se concentra na história econômica do mundo ocidental, abrangendo aproximadamente 1000 anos, desde o ano 1000 com o estabelecimento do feudalismo, passando pela transição para o capitalismo, e evoluindo até o final do século XX. A obra busca apresentar um panorama amplo das diversas interpretações sobre esses processos históricos, convidando o leitor à reflexão e não oferecendo uma “palavra final” sobre cada tema.

Capítulo 1 (Feudalismo)

A sociedade feudal, frequentemente associada a imagens de castelos medievais e camponeses, é um tema complexo com diversas concepções entre os historiadores. Enquanto alguns focam nas relações hierárquicas entre nobres (suseranos e vassalos), que envolviam concessões de feudos em troca de serviços, principalmente militares, outros salientam a fragmentação do poder político, onde a autoridade era exercida de forma privada sobre áreas territoriais. 

Uma terceira e importante perspectiva define o feudalismo a partir de suas formas de organização social e econômica, destacando a servidão como a relação fundamental na esfera produtiva, caracterizada por obrigações impostas aos produtores para satisfazer as exigências econômicas de um senhor, seja em trabalho, dinheiro ou espécie. Apesar das diferentes ênfases, essas concepções não são incompatíveis, mas sim complementares e intimamente relacionadas, pois os aspectos políticos, sociais e econômicos coexistiram e se articularam na organização da sociedade feudal.

Conceitos do Feudalismo

Ao se falar em feudalismo, a imagem inicial pode ser de castelos medievais com nobres e cavaleiros, e aldeias de camponeses pobres. As diversas concepções de feudalismo predominantes nos estudos medievais podem ser distinguidas pelo foco de historiadores: alguns se concentram nas relações entre os nobres, enquanto outros focam na relação entre nobres e camponeses.

O feudo é uma instituição jurídica que representa uma concessão gratuita de um senhor ao seu vassalo para sustento e serviço exigido, frequentemente militar. Essa concessão podia ser um castelo, o direito de cobrar imposto, ou mais comumente, uma área de terra. Embora as normas jurídicas não fossem perfeitamente definidas, a hierarquia entre reis, príncipes, condes, barões e cavaleiros (suseranos e vassalos) era comum.

Uma concepção define feudalismo como um conjunto de instituições que regulam obrigações de obediência e serviço (especialmente militar) de um vassalo (homem livre) para um senhor (homem livre), e obrigações de proteção e sustento do senhor para com o vassalo. No entanto, essa visão abrange apenas o aspecto restrito da relação entre senhor e vassalo, não incluindo os trabalhadores da sociedade feudal.

Outros historiadores ressaltam a esfera política, entendendo o feudalismo como uma forma de governo com poder político profundamente fragmentado espacialmente. Com a desagregação do Império Romano, a autoridade central diminuiu, e o feudo se tornou a unidade política fundamental, com o poder exercido de pessoa para pessoa, de forma privada. Henri Pirenne, por exemplo, via o sistema feudal como a desintegração do poder público nas mãos de seus agentes, que se tornaram independentes ao possuírem parte do solo. Essa definição também não identifica a posição do trabalhador no feudalismo.

Uma terceira concepção foca nas formas de organização social e econômica, caracterizando o feudalismo como uma sociedade predominantemente rural onde a servidão era a relação fundamental na esfera produtiva. Maurice Dobb define feudalismo como “virtualmente idêntico ao que geralmente queremos dizer por servidão”, ou seja, uma obrigação imposta ao produtor por força, independente de sua vontade, para satisfazer exigências econômicas de um senhor, seja em serviços, dinheiro ou espécie. Aqui, o núcleo está na relação entre o senhor feudal e o servo que vive no feudo.

Essas concepções não são incompatíveis, mas complementares e intimamente relacionadas. A capacidade dos senhores de apropriar parte do produto dos camponeses (coerção extraeconômica) dependia de sua habilidade para manter os laços com cavaleiros e a força militar. Assim, os aspectos de cada definição coexistiram e estão logicamente articulados na organização da sociedade feudal.

Origens do Feudalismo

Embora “medieval” e “feudal” sejam frequentemente usados como sinônimos, as instituições feudais não predominaram por toda a Idade Média (476 d.C. ao século XV). A queda do Império Romano em 476 d.C. e a formação de reinos bárbaros no século V iniciaram um período de guerras recorrentes até aproximadamente o ano 1000. Esse esforço de guerra exigiu mobilização de recursos, que se situa na origem de algumas características do feudalismo.

O próprio feudo surgiu nesse contexto: para contar com serviços militares, o rei concedia terras aos cavaleiros para seu sustento, definindo a relação suserano-vassalo. Na época feudal, a noção de propriedade plena não existia, estabelecendo-se uma “hierarquia de proprietários” onde nenhum tinha propriedade plena da terra, e o vassalo tinha obrigações mútuas para com seu suserano, como o serviço militar, fidelidade e homenagem. A guerra também levou à desagregação do poder dos Estados Bárbaros e à centralização do poder em relações pessoais e privadas entre senhores e vassalos, consolidando o feudo como unidade política fundamental por volta do ano 1000.

Paralelamente, a servidão se constituiu, com origens tanto da antiga população escrava romana (colonos presos à terra) quanto do campesinato livre germânico. As guerras e invasões levaram colonos e camponeses a buscar proteção de chefes militares, aceitando obrigações econômicas, militares e sociais inerentes à servidão. Embora inicialmente pudesse parecer uma “troca” por proteção, as obrigações se consolidaram como imposição.

Henri Pirenne oferece outra interpretação, atribuindo a origem do feudalismo, visto como fragmentação do poder, ao retorno da sociedade a uma civilização puramente rural. Ele discorda que as invasões bárbaras tenham causado o declínio do comércio e das cidades, argumentando que isso ocorreu com o controle muçulmano do Mar Mediterrâneo a partir de 711 d.C.. Sem a navegação mediterrânea, a economia europeia ocidental teria se fechado na produção rural, e o poder centralizado se fragmentou e passou a ser exercido localmente.

Independentemente da explicação, por volta do ano 1000, as características definidoras do sistema feudal estavam consolidadas na Europa Ocidental: relação suserano-vassalo, fragmentação do poder e servidão como relação social fundamental no campo.

Organização Econômica do Senhorio Feudal

Um “senhorio” era a área de terra do feudo, não necessariamente contínua, com conotação econômica e social. Um senhorio grande podia ter 4.000 hectares e abrigar 300 famílias de camponeses, mas senhorios menores eram mais frequentes. A terra do senhorio era dividida em:

  • Reserva Senhorial: Áreas de uso exclusivo do senhor, incluindo sua residência (castelo ou mosteiro), instalações como estábulos, moinhos, fornos, e terras cultiváveis.
  • Lotes dos Camponeses (Mansos ou Tenências): Lotes cultivados pelos camponeses e suas famílias, próximos à aldeia. Eram dispersos e cultivados sob o sistema de campo aberto, que impunha alguma forma de utilização coletiva e trabalho conjunto devido às pequenas dimensões e dispersão dos lotes.
  • Terras de Uso Comum: Áreas que, embora formalmente pertencessem ao senhor, podiam ser usadas por todos os habitantes, como pastos, florestas, pântanos, importantes para a subsistência dos camponeses.

A utilização econômica do senhorio envolvia o trabalho de servos e, em certas épocas, escravos, no centro do domínio. O cultivo das terras aráveis da reserva senhorial era feito principalmente pelos camponeses, que eram obrigados a trabalhar nas terras do senhor, geralmente **dois a três dias por semana**. Essa obrigação, chamada **corveia** na França, era o elemento mais característico da servidão. As obrigações dos camponeses para com o senhor incluíam:

  • Banalidades: Uso obrigatório de instalações do senhorio (moinho, forno, lagar) com entrega de parte do produto processado (ex: metade da farinha).
  • Talha: Tributo imposto pelos senhores com base na obrigação de um vassalo sustentar seu chefe, estendido aos servos.
  • Capitação: Pagamento anual por pessoa, justificado como doação em troca de proteção.
  • Mão morta: Pagamento feito pelos herdeiros do servo ao senhor com o melhor animal que possuíam quando o servo morria.
  • Outras obrigações, como o dízimo para a Igreja e pagamentos por permissão para casar ou ingressar em ordens religiosas.

Para cumprir essas obrigações (exceto a corveia, que era trabalho direto), o camponês usava o produto de seu trabalho nos próprios lotes, pagando em espécie ou, em algumas épocas, em dinheiro. A “ociosidade e abundância” dos senhores eram possíveis pela apropriação de parte do trabalho e excedente dos servos. A corveia era de caráter extraeconômico, sem troca econômica subjacente. A terra não era propriedade plena; ao servo cabia o direito de ocupação e uso (geralmente hereditário), enquanto o senhor tinha um **direito eminente sobre a terra**, garantindo a apropriação de parte do produto.

Expansão do Sistema Feudal (Séculos XI-XIII)

Apesar da associação da Idade Média a uma “Idade das Trevas” e à estagnação econômica, houve períodos de expansão no feudalismo. A expansão se manifestou primeiramente no aumento populacional: após um declínio na Alta Idade Média (séculos V-VII), a população europeia cresceu significativamente a partir do ano 1000, chegando a duplicar entre 1000 e 1300.

Houve também expansão territorial da Europa, com derrubada de florestas, drenagem de pântanos e ampliação da área agrícola entre 1000 e 1300. Isso incluiu a ocupação de áreas vazias e a fundação de novas aldeias, estendendo o alcance da organização feudal para além do antigo Império Carolíngio, com conquistas na Inglaterra, leste do Elba, Península Ibérica e Mediterrâneo (cruzadas).

O fim das guerras e invasões que ocorreram do século V ao século X contribuiu para o crescimento populacional e territorial. Algumas inovações tecnológicas, como a carroça de quatro rodas, o uso do cavalo no lugar dos bois e a rotação de três campos, tiveram um impacto apreciável na produtividade agrícola da época. Uma população bem alimentada e menos sujeita a crises de fome tendia a crescer mais rapidamente.

A vitalidade e capacidade de inovação do regime servil são debatidas: alguns apontam o potencial dos camponeses para inovar e se beneficiar, enquanto outros ressaltam a dificuldade de inovações no sistema de campo aberto e o risco de os ganhos serem absorvidos pelos senhores. Apesar dessas tendências opostas, houve uma expansão significativa do sistema entre 1000 e 1350, sem alteração expressiva de sua estrutura.

Comércio Feudal

A noção de “economia fechada” ou “economia natural” é frequentemente associada ao feudalismo, mas a circulação monetária, embora reduzida, existia. O nível de atividade comercial foi bastante baixo na Alta Idade Média.

Tradicionalmente, atribuía-se o declínio das cidades e do comércio às invasões bárbaras após a queda de Roma em 476 d.C.. No entanto, estudos recentes mostram que algum declínio econômico já ocorria no Império Romano desde o século II, e que o comércio e as cidades não desapareceram abruptamente com a queda de Roma, mas experimentaram flutuações. Henri Pirenne argumenta que o comércio no Ocidente foi drasticamente reduzido no início do século VIII, com o domínio muçulmano sobre a navegação no Mediterrâneo a partir de 711 d.C..

Há consenso de que, a partir do ano 1000, houve um aumento do movimento comercial e a recuperação da atividade urbana na Europa Ocidental. As explicações para esse ressurgimento divergem: uma hipótese é que a expansão feudal criou excedentes que induziram a troca, com o excedente apropriado pela classe feudal viabilizando o comércio. Pirenne, por outro lado, defende que a liberação do Mediterrâneo para a navegação europeia (com o deslocamento dos muçulmanos), impulsionada pela primeira cruzada em 1096, levou ao renascimento do comércio.

No século XII, o intenso movimento comercial e a circulação monetária já faziam parte da vida quotidiana, superando a característica de “economia fechada” atribuída ao feudalismo. O renascimento comercial e a reativação da circulação monetária abriram a possibilidade de substituir as obrigações em trabalho ou em espécie por pagamentos em dinheiro. Em particular, a comutação da corveia (troca da obrigação de trabalho por pagamento em dinheiro) era possível. O impacto do comércio na sociedade feudal e se a comutação implicava o fim da servidão são temas controversos na historiografia e cruciais para a análise da transição do feudalismo ao capitalismo.

A Crise Feudal do Século XIV

Em meados do século XIV, a expansão feudal foi interrompida, e eventos como o declínio populacional indicaram a emergência de uma crise do sistema feudal que se estendeu até a primeira metade do século XV. A população europeia, que era de 73 milhões em 1300, caiu para 51 milhões em 1350 e 45 milhões em 1400, recuperando o nível de 1300 apenas por volta de 1500.

Esse declínio é uma forte evidência da crise, mostrando a incapacidade da sociedade de garantir a reprodução de sua população. É frequentemente atribuído à Peste Negra de 1348, que dizimou até um terço da população em algumas regiões. No entanto, a peste é vista como um evento inserido em um processo mais amplo de crise feudal. Já no início do século XIV, havia sinais, como a Grande Fome de 1315-1317, associada a colheitas medíocres e alta mortalidade, sugerindo um desequilíbrio entre população e recursos. As fomes e epidemias subsequentes atingiram uma população debilitada por condições precárias de alimentação.

Uma hipótese para a crise é o esgotamento das áreas disponíveis para colonização. Com o crescimento populacional, terras menos férteis foram incorporadas, e a densidade populacional aumentou em áreas antigas, precarizando as condições de subsistência e reduzindo a produtividade. O ônus recaía sobre os camponeses, que tinham uma parcela decrescente do produto. Outra visão sugere que o declínio da produtividade decorria da própria organização econômica e social, que desestimulava a inovação devido à possibilidade dos senhores de ampliar a extração do excedente camponês por novas obrigações.

As revoltas camponesas do século XIV (Flandres em 1310, Jacquerie na França em 1358, Inglaterra em 1381) refletem a forte pressão sobre os camponeses. A rápida disseminação da Peste Negra também pode ser atribuída às condições precárias de subsistência da população, facilitando o contágio.

O declínio populacional teve um impacto substancial: cerca de 1500 aldeias foram abandonadas na Inglaterra a partir de meados do século XIV, e 25% das localidades na Alemanha desapareceram entre 1300 e 1500, resultando em um verdadeiro despovoamento do campo. Os resultados imediatos foram a redução do preço dos cereais e o aumento dos salários, gerando problemas para a propriedade feudal. Muitos senhorios se tornaram inviáveis devido à redução do número de servos e à queda do preço dos cereais, afetando a renda da classe feudal. Senhores tentaram aumentar a carga de serviços ou pressionaram o Estado para limitar salários (como o Estatuto dos Trabalhadores na Inglaterra em 1351), mas a escassez de trabalhadores limitou a eficácia dessas medidas.

A alternativa foi a mudança na forma de exploração do senhorio, com uma tendência ao arrendamento da reserva senhorial e à comutação da corveia por pagamento em dinheiro. Isso permitia aos senhores recompor sua renda, embora nem sempre fosse simples ou rentável devido à escassez de camponeses dispostos a arrendar e à redução da renda da terra.

Houve também uma mudança na composição da produção rural: a queda dos preços dos cereais induziu a substituição por outras culturas (cevada, vinha, linho) e, em meados do século XV, a conversão de lavouras em pastos para criação de gado bovino e ovino. Essa reestruturação respondia a uma mudança no perfil da demanda, com a população remanescente tendo maior poder de compra para outros produtos.

Conclusão

O século XIV é, portanto, definido como o século da crise feudal, pois o processo de expansão foi rompido e as relações fundamentais do feudalismo foram questionadas. A substituição da corveia por dinheiro e a ampliação dos arrendamentos aliviaram a relação servil em sua forma e deram margem ao surgimento de novos agentes sociais, como camponeses arrendatários ou burgueses investindo na agricultura. Ao fim do século XV, o campo europeu ocidental apresentava um panorama social distinto, com uma classe feudal enfraquecida, uma camada de arrendatários prósperos e camponeses mais livres juridicamente, embora nem sempre em melhores condições de vida. Esse panorama não se aplicava à Europa Oriental, onde a servidão se tornou mais rígida (“segunda servidão”).

Apesar da crise, a Europa retomou seu processo de expansão na segunda metade do século XV, mas em novas base

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