Estamos sempre vivendo momentos em que medidas como o controle de preços voltam à tona. Neste contexto, as ideias do economista Friedrich Hayek sobre como a sociedade usa o conhecimento para organizar sua economia se tornam ainda mais relevantes.
O problema
Hayek, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, argumenta em seu famoso ensaio “O uso do conhecimento na sociedade” que o problema fundamental da organização econômica não é simplesmente alocar recursos escassos se tivéssemos todas as informações disponíveis para uma única mente. Esse é um problema de lógica, que pode ser modelado matematicamente.
O verdadeiro problema econômico da sociedade é muito diferente. Ele se caracteriza pelo fato de que o conhecimento relevante nunca existe de forma concentrada, mas sim como “pedaços dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório, distribuídos por diversos indivíduos independentes”. A questão é como garantir que cada pessoa use da melhor forma os recursos de que tem conhecimento, para fins cuja importância relativa só ela conhece. Trata-se da utilização de um conhecimento que ninguém possui em sua totalidade.
Toda atividade econômica envolve planejamento no sentido de alocar recursos. A grande divergência não é sobre se planejar, mas sobre quem planeja: planejamento centralizado por uma única autoridade, ou planejamento descentralizado por muitos indivíduos independentes (competição). A eficiência de cada sistema depende de qual deles usa o conhecimento existente de forma mais completa.
O Conhecimento
Quando pensamos em conhecimento, muitas vezes priorizamos o conhecimento científico. Embora importante, este não é o único tipo relevante. Existe um corpo crucial de conhecimento desorganizado, não científico: o conhecimento de circunstâncias particulares de tempo e lugar. Este é o conhecimento que cada indivíduo possui sobre sua área, as pessoas, as condições locais, e oportunidades específicas. Saber como usar uma máquina subutilizada, aproveitar a habilidade de alguém, ou estar ciente de alguma informação importante do dia a dia são exemplos desse conhecimento valioso.
Infelizmente, esse conhecimento local é muitas vezes menosprezado hoje em dia. Pessoas que o utilizam para encontrar oportunidades (como transportadores, agentes imobiliários, ou quem faz arbitragem) realizam trabalhos socialmente úteis baseados nesse conhecimento especial. A ideia de que todo esse conhecimento deveria estar disponível para todos ignora que o método de torná-lo disponível é o problema a ser resolvido.
A Incerteza
O problema econômico surge sempre em decorrência de mudanças. A crença de que as pequenas mudanças diárias se tornaram menos importantes na indústria moderna não se sustenta na experiência prática dos empreendedores competitivos. Manter a eficiência exige uma luta constante e ajustes diários com base em circunstâncias imprevistas.
Um ponto crucial é que as circunstâncias particulares não pode ser facilmente transposto para dados estatísticos. Estatísticas, por sua natureza, abstraem as pequenas diferenças de lugar, qualidade e outras características importantes para decisões específicas. Portanto, o planejamento central baseado em estatísticas não pode levar em conta diretamente as circunstâncias locais, precisando delegar decisões a quem está no local.
Os Preços
Se o problema é adaptar-se rapidamente às mudanças locais, as decisões devem ser deixadas com quem conhece essas circunstâncias. Mas o indivíduo local, embora tenha conhecimento íntimo de seu redor imediato, tem um conhecimento limitado. Como, então, transmitir a ele informações suficientes sobre o sistema econômico como um todo para que ele possa integrar suas decisões?
Hayek argumenta que o sistema de preços resolve esse problema. Os preços funcionam como um mecanismo de transmissão de informações. Mesmo que uma única mente onisciente existisse, ela usaria taxas de equivalência ou “valores” (preços) para coordenar recursos sem ter que reavaliar tudo a cada pequena mudança. No mundo real, com o conhecimento disperso, os preços coordenam as ações de várias pessoas da mesma forma.
Exemplo Prático
Imagine que o estanho se tornou mais escasso em algum lugar do mundo, seja por uma nova oportunidade de uso ou pela eliminação de uma fonte. Para os usuários de estanho, a única informação que precisam saber é que o estanho se tornou mais escasso, refletido no aumento do seu preço. Eles não precisam saber por quê ou onde surgiu a nova demanda. Basta que alguns saibam e transfiram recursos, outros percebam a lacuna e a preencham, e o efeito se espalha rapidamente pelo sistema econômico, influenciando o uso do estanho, seus substitutos, etc.. Tudo isso acontece sem que a maioria saiba a causa original. O preço age como um sinal.
O principal mérito do sistema de preços é a economia de conhecimento com que opera. Ele transmite apenas a informação mais essencial (a mudança no preço) para quem está interessado, permitindo que os indivíduos ajustem suas atividades sem precisar conhecer a complexidade da situação global.
Hayek descreve o funcionamento desse mecanismo como uma “maravilha”. Se fosse resultado de um projeto consciente, seria celebrado como um triunfo da mente humana. Mas ele não foi planejado, e as pessoas guiadas por ele muitas vezes não entendem por que fazem o que fazem. O problema é justamente expandir a utilização de recursos além do entendimento de um único indivíduo.
Conclusão
O sistema de preços, como a linguagem, é uma dessas criações sociais não planejadas que o homem aprendeu a usar. Ele torna possível não apenas a divisão do trabalho, mas o uso coordenado de recursos baseado em conhecimentos amplamente divulgados.
Apesar das críticas, ninguém conseguiu propor um sistema alternativo que preserve características importantes do sistema existente, como a capacidade do indivíduo de escolher seus objetivos e usar livremente suas habilidades e conhecimento.
Em resumo, Hayek nos mostra que a força do sistema de mercado reside na sua capacidade de utilizar eficazmente o vasto e disperso conhecimento local e tácito que existe na sociedade, algo que o planejamento central, baseado em dados agregados e conhecimento científico, simplesmente não consegue fazer. O preço é o sinal essencial que coordena essa complexa rede de decisões descentralizadas.

