Sonho de Um Homem Ridículo (Dostoiévski) | Resenha e Análise

Mais artigos

Quais diferenças o Mercantilismo e Capitalismo Comercial?

O que é mercantilismo? Características, Tipos e História

O que é divisão internacional do trabalho (DIT)?

David Ricardo: Quem foi, Teorias e Obras

O que é PIB? Conceito, fórmulas e Teorias

O que é Capitalismo Comercial e Mercantilismo?

Como surgiu o capitalismo? Origem e Desenvolvimento

O que é capitalismo? Origem, tipos e debate econômico

Sonho de Um Homem Ridículo (Dostoiévski) | Resenha e Análise

O que é Propriedade Privada? Conceito, Economia e História

Tempo de leitura: 12 minutos

O Sonho de Um Homem Ridículo é um clássico atemporal de Dostoiévski. Um conto simples, profundo, direto, que toca na alma dos céticos e dos crentes do transcendental. A obra é obrigatória a todos que têm interesse em literatura clássica, mas também interessados em filosofia, teologia, psicologia, e várias outras áreas.

Preferi resumir e depois resenhar porque é importante que tenha um leve contato com a obra parta entender a resenha. Caso não queira, pode ir direto à resenha, mas invariavelmente terá spoilers do conteúdo principal do livro.

Resumo Sonho de um homem ridiculo

O livro é dividido em 5 aos, cada um representando uma fase da narrativa, e realmente faz sentido as divisões. O primeiro capítulo ele é um cara que tem um pensamento um tanto quanto niilista, de que nada faz sentido, de que não tem muito prazer nas coisas, não se importa muito com as conversas.

As conversas das pessoas não fascinam tanto ele, meio que tanto faz tudo. O que faz algum sentido; inclusive eu tenho um pouco disso também, de ser um pouco “tanto faz”. Acho que todo mundo tem um pouco disso. Mas ele era um nível a mais, tanto que o “tanto faz” dele não era simplesmente para coisas políticas ou cotidianas, mas para a própria vida mesmo, no sentido de que tanto faz a própria vida.

E ele é um cara bem depressivo, talvez. O livro não fala muito da vida dele, quem eram os pais dele nem nada. E aí ele fica só falando sobre como a vida não tem sentido, até o ponto em que decide se matar. Ele compra uma arma, mesmo pontuando que, sendo um cara pobre, compra uma arma até que cara e carrega ela naquele mesmo dia, coloca na casa dele e se prepara para se matar e dar um tiro nele mesmo. 
 
Não um tiro na cabeça, como se fosse atingir a parte racional dele, mas um tiro no coração. Talvez porque o coração represente a falta de sentimento que ele tem com o mundo e consigo mesmo.

Segundo capítulo

Ele planeja data e horário de sua morte, e no caminho para ir para casa se matar, ele encontra uma menininha desesperada, correndo pela rua porque tinha acontecido alguma coisa com a mãe dela, gritando: “Mãe, mãe, mãe, alguém ajuda minha mãe!”.
 
Não se sabe se a mãe dela morreu ou o que aconteceu. Mas o que importa é que ele não ligou para aquela menina, simplesmente cagou para ela e foi para casa realizar o plano dele. E quando ele estava para se matar, ele pensou em uma coisa.
 
Ele pensou que naquele momento faltavam duas horas para realizar o plano dele e que, depois que fizesse isso, nada ia importar muito. Mas ao mesmo tempo ele pensa na menina com sentimento, se importando, mesmo que pouco, e percebe que talvez ainda tenha um tanto de humanidade nele.
 
Mas ao mesmo tempo ele poderia ser o cara mais escroto do mundo, ele poderia ser o cara mais bondoso do mundo, mas tanto faz. Depois da bala, nada daquilo mais iria importar. 

Terceiro capítulo

E ele era um cara que tinha problema para dormir, porque ele lia, fazia algumas coisas de que talvez gostasse na vida, mas à noite tinha insônia, sempre passava a noite acordado. No entanto, ele estava pronto, decidido a apertar o gatilho. Mirou, teve seus últimos e profundos pensamentos, e quando estava pronto para atirar no coração, ele acabou dormindo.
 
Daí teve um sonho, onde ele tinha dado o tiro no próprio coração e tinha morrido. (Na verdade, o que eu entendi quando estava ouvindo foi que ele realmente tinha se matado). Então, ele se matou e foi fazendo algo parecido com Memórias Póstumas de Brás Cubas, contando como foi a morte dele.
 
Ele não sentiu nada, não teve exatamente uma dor. Sentiu alguma coisa, mas não necessariamente dor. Ele sentiu pessoas carregando ele, colocando-o numa caixa de madeira fria e jogando terra sobre ele, e ele não sentia muita coisa. Sentia frio, talvez, frio nas pontas dos pés, mas não sentia exatamente dor. Até que começou a sentir, dentro do caixão, gotas de água batendo sobre ele.
 
Então ele sentiu algo vindo pegá-lo — achou que era uma pessoa, mas entendia que era algo que parecia ser humano, embora soubesse que não era — que o levou para outro lugar. 
Foto de Fiodor Dostoievski, escritor de O Sonho de Um Homem Ridículo, tirada em 1860
Foto de Fiodor Dostoievski em 1860

Quarto capítulo (Contém spoiler)

Este é o capitulo mais importante, e caso queira ter a experiência por si mesmo, leia primeiro e depois volte aqui. Dado o aviso, seguimos.

Ele faz como se fosse uma retrospectiva do mundo, não de forma tão detalhada, mas fala sobre o Racionalismomoderno e como as pessoas começaram a querer, pela racionalidade, voltar para o mundo perfeito de antes (claramente ele está falando do Iluminismo e suas derivações).

Depois dá alguns toques leves sobre os regimes autoritários pelo mundo, até que para com tudo, chega ao mundo atual e a gente percebe: ele era a serpente.

O ser humanóide indescritível foi o levando, levando, até levá-lo para, quem sabe, um paraíso: uma outra Terra, um outro lugar que definitivamente não era a Terra, mas onde as pessoas eram felizes. Elas não pensavam muito no que ele estava falando, não se importavam muito com as coisas inteligentes que ele podia falar, elas só eram felizes. Elas se abraçavam, se davam bem, não se esforçavam muito para conseguir o sustento do dia a dia, eram agradecidas pelo dia, pela noite, e viviam bem. Só eram felizes.

E ele fica muito feliz por estar nesse lugar. Ao que parece, O Sonho de Um Homem Ridículo iria acabar ali — ou seja, ele conseguiu a felicidade, foi para o céu e ficou tudo bem. Ele diz que dava tudo sempre certo e estava muito feliz por anos ali.

Só que ele revela o grande plot: “Eu menti sobre tudo isso”. Ele passou milhares de anos neste lugar, e não foi tudo bem. Ele teve contato com essas pessoas e as influenciou ao ponto de que, quanto mais o tempo passava naquele reino encantado, mais as pessoas começaram a se dividir.

Começaram a brigar umas com as outras, a se questionar sobre quais eram as hierarquias daquele lugar. Começaram a existir hierarquias. Uma pessoa começou a dominar uma, a questionar outra, começaram a existir grupos diferentes… até que a gente percebe que ele faz uma história longa do que aconteceu ao longo dos milhares de anos que passou naquele lugar.

Ele não ficou um ou dois dias no “Céu”; ficou milhares de anos ali. E, por todo esse tempo, as coisas foram mudando de um reino de paz e tranquilidade para um lugar onde as pessoas começaram a se dividir, fazer guerras umas com as outras e mentir.

Ele faz como se fosse uma retrospectiva do mundo, não de forma tão detalhada, mas fala sobre o Racionalismo moderno e como as pessoas começaram a querer, pela racionalidade, voltar para o mundo perfeito de antes (claramente ele está falando do Iluminismo e suas derivações). Depois dá alguns toques leves sobre os regimes autoritários pelo mundo, até que para com tudo, chega ao mundo atual e a gente percebe: ele era a serpente do pecado original, causador de todos os problemas humanos.

Quinto capítulo

Aí acaba esse quarto ato, vai para o quinto ato e ele volta e fala: “É, isso realmente foi tudo um sonho, não aconteceu de verdade”. Mas, quando ele acorda do sonho, está com a arma dele lá, se espanta com ela, joga a arma fora e não quer mais saber dela, porque conheceu a verdade.
 
Ele jura que conheceu a verdade e fala: “Pode ter sido um sonho, mas, mesmo que tenha sido um sonho, eu vou dar a minha vida agora para fazer com que isso se torne realidade“. Porque parece que ele teve um contato com o transcendente; mesmo entendendo que aquilo pode ter sido um sonho, ele teve contato com a transcendência. E, se ele sabe que existe e se ele viu — ele fala “eu vi a verdade” —, a vida dele vale a pena.

Resenha Sonho de um homem Ridículo

Por mais que as coisas possam parecer “tanto faz”, as pessoas sejam odiosas, ruins, e ele mesmo possa ser ruim, existe algo a mais do que isso e ele vai dar a vida dele para isso. Antes do sonho, ele dizia que depois da morte dele meio que tanto faz, só que agora não é tanto faz.
Se ele sabe que existe essa outra realidade, o que fizer a partir de agora é tudo lucro, porque se ele se matasse naquela hora, tudo acabaria. Como não se matou, tudo daqui para a frente é zerado. E agora ele pode se dedicar a coisas realmente elevadas.
 
Isso acontece muito com pessoas — já conheci algumas pessoas que tiveram câncer, ficaram bem próximas de morrer, se curaram e tiveram esse tipo de transformação mental de rever os valores da vida e não se importar tanto com trabalho, serem mais calmas, cuidarem mais da saúde, porque dizem: “Cara, eu podia ter morrido dois anos atrás, então tudo o que estou vivendo agora que me livrei dessa doença é lucro, eu só vejo a vida com bons olhos”.
 
A mesma coisa com pessoas que tiveram depressão muito forte e agora estão curadas ou tratadas, e conseguem ter uma visão muito mais madura sobre a vida. Acredito que tem um pouco dessa parte mais social nesse livro, mas, claro, Dostoiévski era cristão, então traz muito essa parte da transcendência e de colocar o personagem como alguém que era um niilista sem contato nenhum com o transcendente, que entendia as coisas de forma material e “tanto faz”, achando que depois da morte existiria apenas uma não existência.
 

Eu também não sei se Dostoiévski está falando da própria vida dele ou se foi um conto de um personagem qualquer, mas, de qualquer forma, fala sobre a vida de muitas pessoas do mundo atual, um mundo materialista de certa forma, com um distanciamento do transcendental.

Ao meu ver, O Sonho de Um Homem Ridículo (que pode ter várias interpretações diferentes) é uma amostra simples, e muito bem escrita, do vazio existencial do mundo materialista, ordinário, sem brio. Daí podemos tirar discussões filosóficas sobre a necessidade de um deus para o vazio humano ou não, mas isso não importa. O que importa é que a arte nos traz a reflexão, não a resposta, e é isso que Dostoiévski conseguiu alcançar nesse livro sensacional.

Dados gerais

  • Livro: Um Sonho de Um Homem Ridículo
  • Autor(a): Fiodór Dostoiévski
  • Edição: 2021
  • Gênero: Ficção
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

Categorias

© 2021 – 2026 Pontappé. Todos os direitos reservados.

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x