“Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Essa é uma das frases mais famosas da literatura mundial, mas o verdadeiro soco no estômago não é a transformação física. O fato de que, ao acordar transformado em um bicho asqueroso, a primeira preocupação de Gregor não é com sua saúde ou sua humanidade, mas sim: “Como vou pegar o trem das cinco para trabalhar?”. Kafka nos mostra, logo na primeira página, como o homem moderno foi reduzido a uma mera engrenagem de produção.
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ToggleEscrita em 1912, a obra-prima de Kafka reflete muito das suas próprias angústias pessoais: a relação abusiva e fria com seu pai severo, a burocracia massacrante de seu emprego em uma companhia de seguros e o esgotamento físico que hoje facilmente chamaríamos de Burnout.
Por conta disso, a interpretação mais comum e mainstream da internet enxerga o livro puramente como uma crítica marxista ou anticapitalista, focada na desumanização do trabalhador que, ao deixar de ser produtivo, é descartado pelo sistema e vira um nada.
No entanto, nessa resenha eu tive uma interpretação pessoal diferente das vistas aqui na internet, pois pra mim o livro me trouxe uma reflexão muito mais profunda do que propriamente ao sistema capitalista, mas uma reflexão sobre a vida. O ideal é que você, após ler esta resenha, tenha contato com o livro, e tire também suas próprias conclusões.
Personagens
Gregor Samsa: O caixeiro-viajante que sustenta os pais e a irmã. Ele aceita um emprego desgastante que odeia apenas para pagar uma dívida antiga dos pais. Ao longo da trama, carrega a responsabilidade de cuidar de todos, pois o emprego dele paga bem, e mantém o padrão de vida da família.
O Pai: Um homem severo e agressivo que, após a transformação do filho, passa a vê-lo com asco absoluto. Uma das cenas mais violentas do livro é o pai bombardeando Gregor com maçãs, ferindo suas costas. Ele é um homem de seu tempo, como todos somos, e não parece ser muito diferente do que Gregor seria no futuro.
Grete (A Irmã): A única que inicialmente tenta cuidar de Gregor e alimentá-lo, mas que, ao longo do tempo, cansa do fardo e é a primeira a verbalizar: “Temos que nos livrar dele”. Ela representa, pra mim, as pessoas que passam por nossa vida, mas vou desenvolver isso mais pra frente.
Análise Crítica
A trama é simples, mas impactante: quando Gregor acorda pela manhã, havia se tornado um inseto monstruoso. O livro não diz exatamente o que é, mas não importa. O que interessa é que ele não é mais o jovem trabalhador, saudável, que luta por e sustenta sua família. A todo momento ele tenta disfarçar o impossível, afastando sua família do quarto, evitando o desconforto das pessoas o verem.
Ele é uma criatura abjeta, que só dorme, é fraco, feio fisicamente, que come com muita dificuldade, não produz nada de relevante e gera constante preocupação para a família. A família agora não tem mais um ser humano, mas sim um inseto desprezível em sua casa.
A Perversão do Isolamento Coletivo
Os pais começam a alugar quartos da casa para inquilinos e usam o quarto do próprio filho como depósito de lixo. É a desumanização completa. Assim como Ivan Ilitch morreu isolado em sua dor cercado por aparências, Gregor morre de fome e infecção, totalmente abandonado pelas pessoas que dedicou a vida para sustentar.
Seu quarto é onde se passa maior parte do livro, e que ele vê como uma prisão. Prisão essa que o impedem de participar da vida social da família. Os convidados aos jantares da família olham para ele, quando consegue se levantar da cama, com certo receio e repulsa. E isso parece razoável, certo? Quem não olharia assim para um inseto humanóide?
Depois de algum tempo, a família de Gregor segue a vida, a irmã se casa com um bom homem, eles se viram, como se Gregor nunca tivesse existido. Finalmente puderam se livrar do fardo que era aquele inseto imundo.
Significado de A Metamorfose
Daí onde chegamos ao baque do livro. Kafka não deixa explícito, pois deixa essa resposta em aberto, mas pra mim é simples: nós somos o inseto. Todos nós já ouvimos alguém dizer que certo dia perceberam que a vida passou como um sopro, que a vida passa rápido, e que 20 ou 30 anos passaram voando. E se Gregor na verdade for um idoso?
Todas as limitações me parecem pertinentes: fragilidade física, impotência até para se alimentar e se limpar, ser um fardo para a família, não poder mais ajudar ou sustentar financeiramente as pessoas próximas. Em resumo, um inseto desprezível.
Está muito longe de mim dizer que um idoso é um ser desprezível. Todos deveríamos tratar os idosos com muito respeito, mesmo os que possivelmente são grosseiros ou mal educados. Eles, de forma brusca ou não, pavimentaram o que chamamos de vida. Dada a devida explicação para não termos mal entendido, seguimos.
Não é incomum ouvirmos idosos tendo essas tristezas, se sentindo impotentes, feios, fardos para a família. Mesmo que não sejam, e a família reforce que são amados, isso é inevitável para pessoas que tiveram uma vida ativa, trabalhando e sustentando suas famílias.
A reflexão do livro, pra mim, é um soco no estômago parecido com o do livro A Morte de Ivan Ilitch, que conta como uma vida feita de aparências, sem reais relacionamentos com amigos e família, fazem com que você viva e morra como um ninguém, que não vai fazer falta quando partir deste mundo. A Metamorfose é pior: ela mostra como, mesmo que tenha familiares, amigos, seja um ótimo profissional e uma pessoa bela de aparência e alma, estamos fadados ao pó e ao esquecimento.
A pessoa mais amorosa, próspera e bonita do mundo poderá morrer numa terça-feira qualquer, às 11 da manhã, enquanto as pessoas ao redor estiverem preocupadas com suas próprias vidas. Será um baque para a sociedade, e as pessoas dirão “que pena, era uma pessoa tão boa”. E elas podem estar sendo sinceras. No entanto, após 1 semana ou 1 mês, será mais impactante para a vida destas pessoas a recente morte ou, quem sabe, uma unha encravada, uma partida importante do time de futebol, ou um relatório importante que precisa entregar no trabalho?
Caso não haja uma morte precoce, quando envelhecer, quanto mais tempo durar na terra, mais inútil, feia, frágil e senil será. Poucas pessoas realmente sentirão nossa falta. Mesmo as que sentirem, quando elas também morrerem, seremos esquecidos pela eternidade.
As pessoas não são insensíveis, mas a vida sempre segue. Como Salomão diz na Bíblia, no livro de Eclesiastes 2:11: “Entretanto, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, vi que tudo era inútil; é correr atrás do vento. Não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.”
A reflexão implícita mais importante do livro pra mim é: o que somos realmente? Somos amados pelo que somos ou pelo que produzimos? Até onde a vida vale a pena ser vivida para outras pessoas? Até onde vale a pena ser vivida para nós mesmos? Eu não sei a resposta, apesar de ter algumas suposições. E isso é o que faz A Metamorfose ser um livro excelente, um clássico atemporal, que indico a todos.
FAQ
Qual é a tese ou mensagem central do livro A Metamorfose?
A mensagem central de A Metamorfose de Franz Kafka é uma crítica profunda à desumanização do homem na sociedade moderna. Através da transformação de Gregor Samsa em um inseto, a obra revela como as relações humanas e familiares muitas vezes são baseadas puramente na utilidade econômica e na capacidade produtiva do indivíduo.
Em que inseto Gregor Samsa se transforma no livro?
No texto original de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em um “inseto monstruoso” (em alemão, ungeheures Ungeziefer). Embora a cultura popular frequentemente associe a imagem a uma barata gigante, Kafka intencionalmente nunca especifica a espécie exata do bicho, focando na sensação de asco, repulsa e perda da forma humana.
Como termina a história do livro A Metamorfose?
O livro termina com a morte trágica de Gregor Samsa em seu quarto, debilitado pela desnutrição, pela infecção de um ferimento causado por seu pai e pelo abandono emocional da família. Após a morte do protagonista, os pais e a irmã sentem um profundo alívio e fazem um passeio de bonde, planejando o futuro de forma otimista, como se Gregor nunca tivesse existido.
O que a metamorfose de Kafka simboliza?
Existem muitas interpretações, mas podemos dizer que A metamorfose simboliza a alienação, a depressão e o esgotamento físico e mental (o que hoje conhecemos como Burnout). O personagem se sente um parasita por odiar seu emprego como caixeiro-viajante, e a transformação física reflete o modo como ele já se sentia internamente e como passou a ser visto pela família quando não pôde mais trabalhar.
