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Tempo de leitura: 12 minutos

O livro O Conto da Aia mostra a história da Offred, uma mulher capturada que vive em uma sociedade distópica onde as mulheres perderam totalmente os seus direitos e são objetificadas em um nível absurdo, servindo apenas como objetos de procriação. Ao longo do percurso, a gente vai entendendo um pouco da história da personagem principal e todo o universo do livro. E o final não é nada, nada simples.

Resumo

A história é contada de uma forma bem diferente da série. Na série já é contado de forma mais fluida, mostrando como era a vida da personagem antes de ser presa na ditadura e como é a vida dela agora. No entanto, o livro passa um bom tempo mostrando como está sendo lá dentro, as nuances e os pensamentos da Offred — que é o nome dado a ela porque ela pertence ao Comandante Fred (Of-Fred).

Ela está sempre meio brava com a situação, querendo extravasar, matar alguém, se livrar daquilo tudo. Mas a história é contada de um jeito que a gente entende que não tem como ela sair dali. Tem muitos guardas, ela não sabe — mesmo se conseguisse fugir para algum lugar — até quando conseguiria fugir. E mesmo se conseguisse, até onde iria correr? Na história ela está presa nos Estados Unidos. O país inteiro virou uma ditadura chamada Gilead.

O Conto da Aia mostra várias cenas de execuções públicas e de pessoas sendo punidas por fazerem coisas muito simples, como andar fora dos limites permitidos, ou sendo punidas de forma verbal, com agressões físicas e psicológicas. A forma como eles contam a ditadura não é tão física para a Offred, mas mais no sentido de anulação dela como ser humano. Ela não apanha em nenhum momento da trama. Ela simplesmente não pode expor nenhuma opinião, e é obrigada a ter relações sexuais com um comandante (nem dá para chamar de sexo exatamente, de tão tosco que é feito o ato. Eles não podem nem olhar na cara um do outro na hora do ato, e tem outra pessoa acompanhando, que é a Serena Joy, segurando a cabeça da Offred. É totalmente bizarro).

Além disso, depois de um tempo é mostrado que a filha dela foi retirada dela, e Luke, seu marido, foi alvejado. Ela não sabe se ele morreu ou não. O marido dela que em nenhum momento aparece no livro a não ser pelas falas dela.

O importante é que no final — no penúltimo capítulo — acontece uma cena mais acelerada, onde eu pensei que as coisas iam ter uma reviravolta e do nada ele acaba. Ela é pega por alguém que não é falado o nome, mas a chama às pressas para fugir daquele lugar. Só que simplesmente acaba no meio do nada. Ela entra num carro, alguém leva ela para algum lugar e fica por isso mesmo. E aí eu fiquei claramente decepcionado.

Só que no último capítulo, chamado “Notas Históricas”, tem a explicação, e daí fiquei um pouco mais calmo. Essas notas históricas são um professor de história, muitos anos depois daquilo, falando de estudos que foram feitos de décadas anteriores. Um desses estudos foi de fitas que foram pegas nos Estados Unidos de uma tal mulher que depois foi descoberto que se chamava Offred (a gente sabe que o nome dela era June Osborne, mas o professor não sabia). Ele contava como era a vida naquela época da ditadura, como se hoje a gente estivesse lendo o Diário de Anne Frank.

Esse capítulo explica que tudo o que a gente soube foi a partir de fitas pegas depois que o regime de Gilead foi vencido e as pessoas voltaram a ser livres. E esses professores comentam de uma forma bem brincalhona toda a tensão que a gente teve durante o livro todo. Eles falam de forma super bem-humorada, fazem brincadeiras e o livro simplesmente acaba. O gancho final pareceu um pouco esquisito e pede uma continuação, mas o geral O Conto da Aia é muito legal.

Resenha

O Conto da Aia é claramente um livro feminista. Eu não sou um feminista, estou muito longe de ser, mas não chamo o livro de feminista de forma pejorativa, muito longe disso. Mas ele claramente tem essa visão mais voltada para o feminino, e foi um dos motivos de eu não ter me interessado tanto a princípio. Agora que terminei, posso falar que é um ótimo livro.

Mas durante a leitura, eu achei um pouco arrastado, no sentido de falar muito de temas femininos como sexo, atração, maternidade, o marido dela, beleza, cuidar da própria pele e coisas assim. Mas obviamente os “sexos não concensuais” são obviamente estupros, cenas desgraçadas, que dá desgosto de ler no livro, e pior ainda assistir na série. É péssimo. São assuntos importantes para mulheres, mas que para mim, como homem, não me tocam muito (com excessão das cenas de estupro, mas aí não tem como, né). Mas tirando isso, de resto eu li meio por obrigação.

Opressão Psicológica

O Conto da Aia mostra a forma como ela era oprimida. Na minha cabeça como homem, essa opressão não tem tanto impacto, mas tentando entrar na cabeça dela e pensar como uma mulher, sim, é bem complicado o que ela passou. Foi o maior nível de objetificação que eu já vi em alguma literatura. A opressão foi de tirar a humanidade dela.

Tudo o que ela faz na vida dela, mesmo vivendo numa coisa totalmente bizarra, é pela filha dela. Até nos momentos de sexo ela pensa se o marido dela morreu ou não, e se não morreu, se estaria traindo ele ou não, se poderia gostar daquilo que estava fazendo ou não.

É bem parecido com o que tem naquela série Outlander, onde a mulher volta 200 anos no passado, vai parar na Irlanda do século XVIII e, para sobreviver, precisa casar e ter relações sexuais com o cara principal. E quando ela está transando com ele, ela que é uma mulher casada no futuro pensa: “Se eu gostar disso aqui, estou traindo meu marido?”. É uma relação bem legal entre as duas obras.

Outlander é feita em um período histórico machista e que as mulheres eram obrigadas estarem em casamentos para terem proteção. Só que como é voltada para a guerra em si, com várias mortes e loucuras, eu gostei muito mais. Mesmo sendo uma serie que toca em temas femininos, eu assisti tudo e gostei muito. Mas como O Conto de Aia foi 99% drama feminino (não em sentido pejorativo) não me pegou tanto.

A Ditadura

No Conto da Aia existem essas hierarquias:

    • Os Comandantes: Claramente beneficiados, os donos da coisa toda.

    • As Tias: São mulheres mais velhas que coordenam tudo, deixam as Aias na linha e têm benefícios de seres humanos, então não vão largar o osso.

    • As Marthas: Fazem os serviços domésticos e a comida.

    • As Aias (como a Offred): São o lixo, meros objetos de procriação.

O outro tipo de opressão é o que muita ditadura faz: o estado não precisa nem te matar ou agredir para se impor. Só precisa pegar um opositor político, matar em praça pública, e todo mundo fica assustado e oprimido sem querer fazer nada fora da linha. E existe também a vigilância de todos os lados. Você não sabe se a amiga do lado é uma infiltrada do governo. As possíveis revoltas não acontecem porque qualquer um poderia ser um infiltrado e estragar tudo. Não precisa de armas, só controle psicológico.

Toda ditadura, democracia ou monarquia precisa oferecer benefícios às pessoas, porque nenhum governante fica no poder se o povo rejeitar e decidir derrubar. Roma caiu, a União Soviética caiu, a Rússia czarista caiu. Para o governo não cair, ou ele é um bom governante, ou se for ditador, precisa oferecer benefícios ao máximo de pessoas da elite que obedecem a ele.

Na Coreia do Norte é a mesma coisa. Como o Kim Jong-un se mantém? As pessoas não se revoltam por medo, já nasceram dentro daquilo, e ficam presas na ideia do livro 1984 de que “guerra é paz” e sempre precisam de um inimigo. Mas além disso, os soldados do exército e os mais próximos precisam ser beneficiados com regalias. Eles pensam: “Eu faço parte da elite, tenho as armas, a população está na miséria; mas eu não sou a população, sou o exército”. Na democracia é parecido: por que os políticos não resolvem os problemas? Porque eles são a elite, não a população, e vão ser sempre beneficiados.

Considerações Finais

Eu tirei poucas lições de vida em O Conto da Aia, até porque ele é uma distopia, não é como O Alquimista que tem ensinamentos ocultos, nem um livro de autoajuda. É simplesmente uma distopia que mostra os níveis máximos de objetificação feminina.

Para mim não foi tão pegado no sentido de me emocionar, porque não sou mulher, mas com certeza é um ótimo livro, muito bem escrito. O gancho final deixa um ponto de partida muito legal para um próximo livro ou filme.

O livro A Paciente Silenciosa, por exemplo, é infinitamente mais ridículo. Eu acho aquele livro ridículo porque, além de ser arrastado, no final acaba do nada sem explicação nenhuma e tudo mal feito. Já O Conto da Aia, mesmo eu tendo achado arrastado em alguns momentos, no final tudo faz sentido. Você consegue voltar ao início e ver a construção de personagens, cenários e sentimentos.

Mesmo que você seja um homem que não se interessa pelo assunto ou odeie o feminismo, não seja tolo: o Conto da Aia é muito bacana e dificilmente você vai achar uma perda de tempo. E se for mulher, dificilmente vai se arrepender. É um livro ótimo para se ler nos passos de tempo e alcança muitos públicos — inclusive os não interessados, como eu.

FAQ

O Conto da Aia mostra como regimes autoritários não nascem do nada, e com intenções ruins, mas muitas vezes com exceção de moralidade, segurança e ordem. Além disso, discute o papel da mulher na sociedade e seu valor intrínseco além da procriação e deveres domésticos.

O Conto da Aia retrata uma ditadura nos Estados Unidos chamado Gilead, onde as mulheres perderam todos os seus direitos, viraram objetos de procriação, tudo isso para sustentarem um regime totalitário com bases de extremismo religioso e político.

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