Resumo as seis licoes

Resumo: As Seis Lições – Completo

Tempo de leitura: 51 minutos

No vasto panorama da teoria econômica, Ludwig von Mises permanece como um farol cuja luz ilumina os caminhos do entendimento. Em seu trabalho magistral, “As Seis Lições”, Mises destila décadas de pensamento e experiência para oferecer uma exploração perspicaz dos princípios fundamentais da economia austríaca. Neste resumo, te convido a mergulhar nas páginas deste livro transformador, desvendando os alicerces que sustentam suas seis lições e compreendendo como esses conceitos continuam a moldar a compreensão moderna da economia.

O cerne deste livro, no entanto, reside não apenas em suas páginas, mas também nas palavras que ecoaram em Buenos Aires, Argentina, durante uma série de palestras proferidas por Mises em 1959.

Cada lição é um capítulo crucial na narrativa misesiana, desde as considerações sobre a natureza da escassez até a defesa apaixonada da liberdade individual como pedra angular do sistema econômico ideal. Ao explorarmos esses temas, viajaremos pelo intrincado labirinto de ideias de Mises, revelando como suas perspectivas moldaram não apenas o pensamento econômico de sua época, mas também como ecoam nas discussões contemporâneas.

Capítulo 01 (Capitalismo)

Algumas palavras são usadas erroneamente por algumas pessoas para descrever ou comparar o capitalismo ou fases dele. Um desses erros é chamar um dono de fábrica de “rei” dos automóveis, ou dos tecidos, etc. O erro se encontra na submissão que o empresário – chamado de rei – tem, coisa que o rei não encontra. 

Um rei, ao querer fazer alguma empreitada, precisa da aprovação dos súditos, ou ao menos da passividade deles. O empresário não tem essa autonomia toda de um mandante; na verdade é exatamente o contrário, ele é um servente. Isto é, invés de ele ser o “rei” dos automóveis, na verdade ele é um servente dos compradores dos automóveis. O capitalismo, na verdade, um sistema de submissão mútua entre os produtores, funcionários e consumidores. Nesse resumo, iremos debater um pouco melhor essa ideia

História do Capitalismo

As manufaturas eram especialmente urbanas, ditas industrias de beneficiamento que trabalhavam para produzir bens caros, voltados para os ricos. Contudo, nas zonas rurais começou haver uma expansão enorme da população, o que gerou falta de alimentos, moradias e empregos. A introdução dessas pessoas em fábricas urbanas era vedada pelos reis, e o numero crescente de párias da sociedade era considerado uma ameaça para a sociedade vigente.

Foi destes párias que surgiu o capitalismo moderno. Invés de produzir pouco produtos caros para atender à nobreza, essas pessoas pobres produziam muitos produtos baratos para atender a massa. É nisso que se baseia o capitalismo de hoje em dia (época da palestra de Mises, 1959): produção em massa.

Do proletário para o proletário

Entretanto, os problemas acusados pelos esquerdistas de que o capitalismo serve para atender as vontades do capitalismo não poderia estar mais errado. Os bens produzidos pelos trabalhadores é consumido por ele próprio. 

Quando se diz “o cliente sempre tem a razão”, cai-se no erro de achar que o consumidor não é ele próprio o trabalhador que produz aquele bem ou mesmo outro de algum outro setor. Da mesma forma, quando coloca-se o capitalista como o dono do mundo, também cai-se no erro de esquecer que se o consumidor parar de consumir o produto do capitalista, ele fali completamente, 

Pôr o capitalismo como um sistema de dominação de uns e submissão de outros numa hierarquia opressora é esquecer da interdependência dos seres humanos na cooperação voluntária, que era assim nas primeiras civilizações e é hoje, num sistema mais evoluído de produção em massa.

Monopólio em livre mercado?

Contudo, ainda sobre as evoluções da humanidade via capitalismo, podemos entender que o livre mercado é a beleza de todo o sistema. Digamos que essa produção em massa seja acusada por odiadores do capitalismo por ser um sistema que tende ao monopólio. Ora, se o possível ou real monopólio ou oligopólio de algum setor ou bem é estabelecido, significa que aquele(s) produtor(es) está(ão) atendendo as necessidades dos consumidores. 

Dessa forma, se alguma hora houver desagrado dos consumidores, outro ofertante aparecerá atendendo estas demandas. Melhor, vamos imaginar o setor das ferrovias nos estados unidos, que eram oligopólios enormes. As barreiras a entrada eram enormes e, por isso, a concorrência era dificultada. Pelo livre mercado, não se é garantido que todos possam produzir a mesma coisa, mas sim fazer algo diferente ou comparável. Não se pode construir várias ferrovias uma encima da outra com a ideia de livre mercado.

No entanto, o que ferrou as ferrovias foram os automóveis, aviões, ônibus, caminhões, navios, que modificaram o transporte do mundo. Toda a evolução que vemos hoje no transporte de passageiros não foi orquestrado por nenhum capitalista individual, mas por ofertantes de novas formas de atender as necessidades das grandes massas (ou, em certos casos, de setores específicos onde as grandes produtoras não conseguem ou não querem ofertar)

“O desenvolvimento do capitalismo consiste em que cada homem tem o direito de servir melhor e/ou mais barato o seu cliente. E, num tempo relativamente curto, esse método, esse princípio, transformou a face do mundo, possibilitando um crescimento sem precedentes da população mundial.”

O milagre do Capitalismo

O capitalismo é o sistema econômico que consegue fazer com que um homem sirva o melhor possível outro homem, e que esse o recompense bem pelo que lhe foi servido. Quando a humanidade conseguiu fazer com que esse sistema de voluntariedade se fizesse, os níveis de qualidade de vida cresceram absurdamente. No gráfico abaixo  você pode conferir uma observação muito famosa nas discussões econômicas que mostra a evolução da qualidade de vida da população mundial. 

Gráfico qualidade de vida

A história

Quando algum amigo ou pessoa próxima te disser algo contra o capitalismo, é interessante que o questione sobre essas questões. É interessante que o faça pensar sobre como era a qualidade de vida antes do capitalismo. Será que as pessoas foram obrigadas a trabalharem nas fábricas ao serem sequestradas de suas fazendas familiares?

O que ocorre é exatamente o contrário: a qualidade de vida era tão horrível que Adam Smith, contemporâneo da Inglaterra no ápice da Revolução Industrial, diz que as pessoas deveriam ter ao menos quatro filhos, visto que ao menos dois deles provavelmente não alcançariam a vida adulta. As crianças não estavam brincando na rua ou estudando e foram obrigadas a irem trabalhar. Na verdade, essas crianças estavam morrendo. As mulheres não estavam pintando quadros ou cuidando de suas casas. Em verdade, elas estavam lutando pela sobrevivência.

As condições de trabalho da época eram horríveis, mesmo nas fábricas, mas isso possibilitou a humanidade atravessar a um ponto muito maior do que teve em toda a história anterior à Revolução Industrial. Uma pessoa comum hoje em dia vive absurdamente melhor que um rico do século 18. O que diferenciava uma pessoa bem de vida e uma pobre no século 18 era uma ter um sapato e outra andar descalça. Hoje, bem ou não, o que diferencia um pobre e um rico é um ter um Uno e outra uma Lamborghini. As desigualdades aumentaram, mas a qualidade de vida também, e a miséria quase desapareceu. 

O ataque

Quem primeiro iniciou os ataques ao capitalismo não foram os trabalhadores ou as famílias; quem iniciou os ataques foram os donos de terra, esses que pagavam salários realmente baixos. As fábricas começaram funcionar a todo vapor, como retratado em A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Ao isso ocorrer, as pessoas eram atraídas aos grandes centros fabris por buscarem salários maiores, o que tirava mão-de-obra dos donos de terra com seus funcionários em níveis de pobreza alarmante.

Até existe um relato, provavelmente inventado, de um dono de terra que viu um antigo funcionário de sua fazenda, e o perguntou: “por que saiu e minha fazenda e veio trabalhar nas fabricas?”. O funcionário respondeu algo como: “Na fazenda não tem como eu ouvir musica  e beber cerveja”. 

Em condições ruins comparadas a hoje, temos que entender que, mesmo com todos os problemas, a qualidade de vida melhora a cada década. Graças ao capitalismo, a humanidade está desfrutando de padrões de vida nunca vistos antes, e poderia ser muito melhor se os estados não tivessem e continuassem causando tantos problemas ao mercado, seja investindo em guerras, seja tratando o mercado como um inimigo (impostos, regulamentações, distorções monetárias, etc.)

Incoerências marxistas

Incrivelmente, quem deu nome ao capitalismo não foi um simpatizante dele. Quem o primeiro fez foi Karl Marx, o descrevendo até que de uma forma bacana, se entendermos que o capitalismo realmente foi o sistema que conseguiu fazer com que muitas pessoas tivessem o excesso do que era necessário para sua sobrevivência, podendo poupar e investir. Ele trata essa questão como se fosse algo ruim, mas isso é facilmente rebatido.

Quando alguém consegue poupar, quem sabe, dez mil reais, essa pessoa pode emprestar a algum empresário para que ele abra sua empresa em troca de um retorno por juros. Esse empresário (o capitalista), irá fazer planos para empregar seu dinheiro, contratando funcionários e comprando insumos. Somente após tudo dar certo (se der) é que o empresário conseguirá ter seus lucros. Os trabalhadores, por outro lado, imediatamente terão seus benefícios. 

Sempre que isso ocorre, os padrões de vida aumentam, e isso foi observado na Europa, com a população mundial alcançando marcas nunca antes vistas, e continuam aumentando até hoje. A ideia de Karl Marx seria que se houvesse acumulo de capital e os trabalhadores tivessem mais filhos, esses filhos cresceriam e entrariam no mercado de trabalho, aumentando a oferta e, por consequência, diminuindo os salários s níveis de miséria.

Capitalismo meme equidade igualdade

Considerações finais

De certa maneira, Marx estava certo ao entender que se a população crescer e o investimento em capital produtivo do país não acompanhar, a miséria é certa. No entanto, o livre mercado faz essas flutuações normalmente, e mais prospera ou não será um país de acordo com a liberdade que as pessoas tem de servir umas as outras.

O “Milagre” da Alemanha pós Segunda Guerra Mundial não foi um milagre, mas apenas pessoas fazendo o que naturalmente fazem: trocas voluntárias. O que a Alemanha e diversos outros países fizeram e deram certo não foram milagres, foram politicas econômicas sólidas, e é em crescimento que isso resulta.

Capítulo 02 (Socialismo)

Já imaginou como o jeito que a gente monta a economia influencia — e muito — as liberdades que temos no dia a dia? Ludwig von Mises, no livro “As Seis Lições”, reserva um capítulo inteiro pra falar de socialismo e, de quebra, mostra por que a liberdade econômica não é só mais uma no cardápio das liberdades: ela é o alicerce que sustenta todas as outras. Quando o dinheiro circula livremente, as ideias, os projetos e até os nossos sonhos ganham espaço pra acontecer; se esse fluxo trava, tudo o mais fica mais difícil, ou mesmo impossível.

O Mercado

Pra Mises, a economia de mercado não é só um monte de gente comprando e vendendo coisas, é um verdadeiro organismo vivo, um processo em que a cooperação entre as pessoas acontece de forma natural. Não se trata de um lugar específico, mas de como, no dia a dia, cada um de nós contribui pro funcionamento da sociedade ao produzir, vender, comprar e consumir.

E tem um ponto que ele faz questão de destacar: no capitalismo, quem dá as cartas de verdade não são os empresários, e sim os consumidores. Isso mesmo. Somos nós, com nossas escolhas, preferências e decisões de compra, que direcionamos o que será produzido, como será feito e até quem vai ter sucesso ou não no mercado. Mises mostra isso justamente pra fazer um contraste com o socialismo, onde esse poder acaba concentrado nas mãos do Estado, e não do povo.

Liberdade Econômica

Um dos argumentos mais enfáticos de Mises é que a liberdade econômica é absolutamente inseparável de outras liberdades que consideramos preciosas, como as liberdades de expressão, pensamento e imprensa. Há uma visão comum de que é possível manter essas liberdades civis e políticas mesmo sem liberdade econômica. Mises rejeita essa ideia: ele argumenta que “num sistema desprovido de mercado, em que o governo determina tudo, todas essas outras liberdades são ilusórias”.

Imagine a liberdade de imprensa, por exemplo. Se o governo possui e controla todas as máquinas impressoras, como alguém poderia realmente exercer essa liberdade para criticar o próprio governo?
No sistema de mercado, a liberdade para um indivíduo significa que ele depende dos outros tanto quanto os outros dependem dele. 

No socialismo, por outro lado, a sua escolha de carreira, por exemplo, seria determinada pelo governo, e não por você. Em uma sociedade de mercado, você tem a “liberdade de escolher qualquer carreira que deseje seguir”. Se você não alcança a posição que almeja no capitalismo, Mises argumenta que as pessoas “só podem culpar a si mesmas”, ao contrário da sociedade pré-capitalista ou socialista onde o status ou a carreira são fixos ou determinados por uma autoridade.

Liberdade para Errar

Mises nos convida a olhar além do óbvio na economia, usando a famosa frase francesa “Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas” (O que se vê e o que não se vê). Vemos um chefe dando ordens, mas o que não vemos são as ordens “invisíveis” dos clientes que guiam as decisões desse chefe. Essa é a essência da supremacia do consumidor em ação.

Mises utiliza a experiência da proibição do álcool nos EUA (a “nobre experiência”) para ilustrar um ponto crucial sobre a liberdade. Ele afirma que “Liberdade significa realmente ser livre para errar”. Permitir que o governo controle o que as pessoas comem ou bebem, ou como vivem, abre um precedente perigoso. Uma vez que o governo tem esse poder, Mises pergunta, por que não controlar o que as pessoas leem ou pensam? Ele cita o exemplo da Alemanha nazista que decidia quais obras de arte eram aceitáveis e quais não eram.

Singapura: um dos países com maior índice de liberdade econômica do mundo
Singapura: um dos países com maior índice de liberdade econômica do mundo

Planejamento Central

Mises também critica o uso do termo “planejamento” como sinônimo de socialismo. Ele argumenta que o que os socialistas propõem é um “planejamento central, o que significa um plano único, feito pelo governo – um plano que impede todo planejamento feito por outra pessoa”. A vida em uma sociedade livre envolve planejamento individual diário. O planejamento governamental, no entanto, trata o indivíduo como um soldado que apenas cumpre ordens.

Talvez o argumento mais poderoso de Mises contra o socialismo seja a impossibilidade do cálculo econômico sem preços de mercado. Em um sistema de mercado, os empresários fazem cálculos complexos baseados nos preços em dinheiro dos bens de consumo e, crucialmente, dos fatores de produção (terras, trabalho, capital). Esses preços refletem a escassez relativa e as preferências dos consumidores, guiando os produtores sobre o que e como produzir de forma eficiente.

Mises explica que o sistema de mercado depende de uma “divisão mentalmente calculada do trabalho entre os vários empresários que disputam entre si os fatores de produção”. No socialismo, onde o mercado e a propriedade privada dos meios de produção são abolidos, não existem preços de mercado para os fatores de produção. Sem esses preços, Mises afirma que “ficariam inutilizados todos os cômputos e cálculos feitos pelos engenheiros e tecnólogos”. 

Eles poderiam ter cálculos técnicos sobre a quantidade de insumos necessários, mas não teriam como comparar o valor econômico de diferentes insumos ou processos de produção para saber qual é o mais eficiente e atende melhor às necessidades dos consumidores. Mises aponta que a Rússia Soviética só conseguia, de alguma forma, gerir seu sistema recorrendo aos preços do mercado mundial como referência.

Conclusão

Em resumo, Mises nos desafia a ver o socialismo não apenas como um sistema econômico diferente, mas como uma organização social que, ao eliminar o mercado e o cálculo econômico baseado em preços, necessariamente subverte as liberdades individuais. A liberdade de escolher sua carreira, a liberdade de imprensa, e até mesmo a liberdade de errar, estão intrinsecamente ligadas à liberdade de participar e interagir em um mercado livre. Para Mises, a liberdade econômica é, portanto, a base indispensável para todas as outras formas de liberdade.

Capítulo 03 (Intervencionismo)

A terceira lição do livro As Seis Lições, debateremos o tema  crucial para entender a organização econômica: o intervencionismo e por que ele é visto como um caminho perigoso que pode levar, passo a passo, ao socialismo.

Papel do Governo

Mises começa discutindo a função adequada de um bom governo. Diferente da ideia de que “o melhor governo é o que menos governa”, ele defende que o governo deve fazer tudo para o qual é necessário e foi instituído. No sistema de economia de mercado livre, o que o governo foi instituído para fazer é proteger as pessoas e o país contra a violência e a fraude, tanto interna quanto externa.

Proteger os cidadãos, incluindo empresários e seus empregados, contra bandidos é uma expectativa normal e necessária, e não constitui intervenção no mercado. Dizer que o governo deve prender criminosos, mas não abrir estradas ou gastar dinheiro em inutilidades, não significa odiar o governo, mas sim reconhecer que ele é qualificado para certas coisas e não para outras.

Muitas pessoas argumentam que hoje temos uma “economia mista”, citando empresas de propriedade e gestão governamental como telefonia ou ferrovias. O autor reconhece que algumas dessas empresas são geridas pelo governo. No entanto, ele argumenta que isso não altera o caráter do sistema econômico a ponto de torná-lo um “pequeno socialismo” dentro da economia de mercado.

Isso ocorre porque, ao gerir essas empresas (como correios ou ferrovias), o governo está subordinado à supremacia do mercado, ou seja, à supremacia dos consumidores. O governo precisa contratar pessoal, comprar matérias-primas e vender serviços/mercadorias ao público, operando dentro da lógica do sistema livre. A grande diferença é que, via de regra, essas operações governamentais resultam em déficit. 

Enquanto um indivíduo que tem prejuízo vai à falência, o governo pode financiar o déficit impondo impostos à população. Se os contribuintes aceitarem pagar impostos mais altos para sustentar uma empresa governamental menos eficiente que uma privada, ela pode se manter ativa. No entanto, quando a estatização e os déficits crescem demais, a arrecadação de impostos não é suficiente, levando à inflação. Mas o autor ressalta que essa “economia mista” com empresas estatais, embora possa gerar déficits e inflação,*não deve ser confundida com o problema do intervencionismo que ele quer discutir.

O Que É Intervencionismo?

O intervencionismo acontece quando o governo decide ir além da sua função básica de proteger a ordem e a segurança. Significa que o governo deseja fazer mais, interferindo nos fenômenos de mercado. Não se trata da ação policial para evitar um assalto, mas da interferência governamental no mercado.

O governo intervencionista não apenas falha em proteger o funcionamento harmonioso da economia de mercado, mas interfere ativamente em seus mecanismos: nos preços, nos padrões salariais, nas taxas de juro e de lucro. O objetivo dessa interferência é obrigar as empresas a operar de forma diferente da que escolheriam se apenas obedecessem aos consumidores. Em essência, todas as medidas intervencionistas buscam restringir a supremacia do consumidor e outorgar ao governo parte do poder que, no mercado livre, pertence aos consumidores.

Venezuela: um dos países com maior nível de intervencionismo do mundo
Venezuela: um dos países com maior nível de intervencionismo do mundo

Controle de Preços

Um exemplo conhecido de intervencionismo é o controle de preços, frequentemente utilizado por governos em tempos de inflação para tentar conter a alta dos preços.

Existem exemplos históricos famosos do fracasso do controle de preços:

  • O imperador romano Diocleciano (século III) desvalorizou a moeda (inflação primitiva, adulterando metais). Quando os preços subiram, ele decretou controles, impondo a pena de morte para quem cobrasse preços mais altos. Apesar da implacabilidade, o controle falhou, levando à desintegração do Império Romano e da divisão do trabalho.
  • Durante a Revolução Francesa (quinze séculos depois), a tecnologia da máquina impressora permitiu uma inflação rápida. Também impuseram preços máximos, e embora não usassem a mesma pena de morte de Diocleciano, tinham a guilhotina. Apesar da brutalidade (lembrada até na queda de Robespierre), também fracassaram com as leis de preço máximo.

Para entender o fracasso do controle de preços, consideremos o exemplo do controle de preço do leite. O governo, querendo ajudar as crianças, estabelece um preço máximo para o leite abaixo do preço de mercado. O resultado imediato é o preço mais baixo. Os preços são calculados de acordo com os custos de produção, acrescido o lucro. Se o preço ficar abaixo do ideal, os produtores não terão o lucro necessário para manter a produção. Produtores com custos mais altos (marginais) começam a ter prejuízo, e como não podem sustentar o prejuízo, eles reduzem a oferta de leite. No final de tudo, tem menos leite disponível, e filas enormes para conseguir o pouco que tem.

O governo, que queria aumentar a satisfação dos consumidores, os descontenta. Antes, o leite era caro, mas disponível; agora é escasso. O consumo total diminui. Após isso, o governo parte para o racionamento. Isso significa que alguns obtêm leite, outros não, de forma arbitrária (ex: por idade). Mas a quantidade total disponível continua menor.

Quando o governo pergunta aos produtores por que a produção diminuiu, a resposta é clara: os custos de produção são superiores ao preço máximo. O governo, então, em vez de abandonar o controle, decide intervir nos fatores de produção.

Geralmente o governo não fica só em um ou outro produto, mas expande isso para outros artigos essenciais (ovos, carne). Para conseguir controlar, é forçado a recuar na cadeia produtiva, controlando preços de bens de produção cada vez mais básicos. Isso inclui, necessariamente, o controle do preço da mão-de-obra (controle salarial), pois sem ele, o controle de custos não funciona. Além disso, o governo não pode limitar a interferência apenas a bens de primeira necessidade; precisa incluir bens de luxo, pois capital e mão-de-obra migrariam para lá se seus preços não fossem controlados.

A conclusão é fundamental: a interferência isolada no preço de um ou outro bem sempre gera efeitos piores que as condições anteriores. O que era caro, começa a sumir do mercado. O governo, que queria aumentar a oferta, obtém o resultado contrário. Esse processo, se não for detido, leva a um ponto em que todos os preços, salários, taxas de juro é determinado pelo governo. E isso, afirma o autor, é socialismo.

Exemplos Históricos

  • Alemanha e Inglaterra (Primeira Guerra Mundial): Ambos os países, com inflação, impuseram controles de preços, começando com poucos itens (leite, ovos) e expandindo. Na Alemanha, isso culminou no Plano Hindenburg, que estabelecia controle governamental sobre todo o sistema econômico (preços, salários, lucros, tudo). Antes que fosse totalmente implementado, o Império Alemão colapsou. A Inglaterra seguiu um caminho similar, mas a entrada dos EUA na guerra, fornecendo suprimentos, obstou o caminho para o socialismo naquela ocasião.
  • Alemanha Nazista (Pré-Segunda Guerra Mundial): Hitler reintroduziu o controle de preços. Na Alemanha de Hitler, não havia empresa ou iniciativa privada de fato, mas sim um sistema de socialismo que mantinha apenas os rótulos do livre mercado. O proprietário era chamado de “gerente” ou “chefe” de negócios (Betriebsführer), parte de uma hierarquia de führers com Hitler no topo. Os trabalhadores (Gefolgschaft) obedeciam a ordens de um ministério central (Reichs-führerwirtschaftsministerium), que ditava tudo: o que produzir, quanto, onde comprar, quanto pagar, a quem vender, a que preço. Salários eram decretados pelo governo. O Betriebsführer não ficava com lucros, recebia um salário, e precisava de permissão até para gastos médicos maiores. Preços e salários eram apenas “expressões quantitativas num sistema de socialismo”.
  • Grã-Bretanha (Segunda Guerra Mundial): Começando com o controle de alguns preços, o governo britânico também expandiu o controle sobre a economia, chegando a algo muito próximo do socialismo puro ao final da guerra. O governo trabalhista de 1945 apenas manteve o sistema socialista já introduzido pelo governo de Churchill. A estatização de instituições como o Banco da Inglaterra, ferrovias e indústria do aço foi, em grande parte, apenas formalizar o controle que já existia sob o “socialismo de guerra” intervencionista. O autor nota que a diferença entre os sistemas alemão e britânico era pequena, já que em ambos os casos os gestores eram designados pelo governo e seguiam suas ordens. Os rótulos do capitalismo foram mantidos, mas significavam apenas decretos governamentais.

Efeitos da Intervenção

O autor cita o controle do aluguel como outro exemplo. Uma consequência é que pessoas que poderiam mudar para apartamentos menores e mais baratos, como casais com filhos que saíram de casa, não o fazem, pois não há incentivo. Em Viena, na década de 20, o aluguel controlado era tão baixo que não havia incentivo para mudar ou construir novas casas. Condições semelhantes ocorreram nos EUA após a Segunda Guerra e persistem hoje em muitas cidades, levando à escassez de moradias e dificuldades financeiras para as cidades.

A escassez de moradias, assim como a de leite, foi gerada pela interferência governamental, que fixou preços abaixo do que seria o mercado livre. Novamente: sempre que se interfere no mercado, o governo é progressivamente impelido ao socialismo.

Outro exemplo é o protecionismo, onde o governo isola o mercado interno com tarifas. Isso eleva o preço interno acima do mundial e possibilita a formação de cartéis nacionais pelos produtores. Em seguida, o governo age contra os cartéis que ele mesmo ajudou a criar, justificando mais interferência. O autor considera absurdo que o governo, que gera as condições para os cartéis, se volte contra as empresas; seria mais simples evitar a formação de cartéis parando a interferência.

Ilusão do Meio Termo

O autor refuta a ideia de um “meio-termo” – um sistema entre o socialismo e o capitalismo que manteria as vantagens e evitaria as desvantagens de ambos. Essa ideia é vista como um puro contra-senso. A interferência isolada, mesmo em um pequeno detalhe, cria uma situação que desagrada até mesmo ao governo e aos que a pediram. Os defensores do intervencionismo exaltam um sistema que, na prática, leva a circunstâncias insatisfatórias e caóticas.

A grande aceitação da interferência governamental é vista como um resquício de épocas passadas, antes da liberdade e do governo constitucional. Antigamente, acreditava-se na doutrina de que o rei, ungido por Deus, era mais sábio e possuía poderes sobrenaturais. Embora essa crença tenha diminuído, ela ressurgiu. O autor cita o exemplo do professor Werner Sombart, que em pleno século XX escreveu que Hitler (“nosso Führer”) recebia instruções diretamente de Deus (“o Führer do universo”). Isso explica como até mesmo um pequeno burocrata pode se sentir superior e desejar interferir em tudo.

Existe um remédio contra essa tendência autoritária? O autor acredita que sim: a força dos cidadãos. Cabe aos cidadãos impedir a implantação de regimes que se arrogam sabedoria superior à do indivíduo comum. Essa é a diferença fundamental entre liberdade e servidão. Embora regimes socialistas se autodenominem “democracia”, o autor espera que ditadores recebam a resposta que merecem, como acredita ter acontecido em alguns lugares.

Conclusão

Em suma, a Terceira Lição nos alerta que o intervencionismo, ao interferir nos mecanismos de mercado em busca de resultados específicos (como preços baixos), gera consequências negativas não intencionais (escassez) que levam à necessidade de mais controle, em uma escalada que, se não for detida, culmina na abolição do mercado e na implantação do socialismo. A única proteção contra essa “ladeira escorregadia” é a vigilância e a ação dos próprios cidadãos para limitar o poder governamental à sua função essencial de proteção.

Capítulo 04 (Inflação)

Em um mundo onde as condições econômicas moldam nossas vidas diárias e determinam o futuro das nações, compreender os princípios fundamentais da economia é mais crucial do que nunca. Quais políticas realmente nos levam à prosperidade e à liberdade, e quais nos desviam do caminho? As fontes que examinamos nos oferecem insights valiosos sobre a natureza da inflação, os perigos do intervencionismo e a importância vital do investimento de capital e das ideias corretas.

Inflação é Imposto

A inflação, em sua essência, é um fenômeno econômico que resulta do aumento da quantidade de dinheiro em circulação. Quando um governo, por exemplo, aumenta a quantidade de papel-moeda, o poder de compra de cada unidade monetária diminui, e os preços dos bens e serviços tendem a subir. Lamentavelmente, muitos preferem culpar a elevação dos preços pela inflação, e não o aumento da quantidade de dinheiro.

É vital entender que a inflação não é um ato de Deus, uma catástrofe natural ou uma doença, mas sim uma política deliberada adotada por governos. Enquanto a tributação direta é impopular e de difícil execução, a impressão de dinheiro novo (ou a criação de moeda fiduciária sem lastro) surge como um método aparentemente mais fácil de arrecadar fundos para projetos governamentais.

No entanto, essa “solução” tem consequências devastadoras, como a perda de poder de compra: A quantidade de bens que pode ser adquirida com uma unidade de dinheiro se reduz.

Argentina: um dos países com maior inflação dos últimos anos
Argentina: um dos países com maior inflação dos últimos anos

Preços

Os preços tendem a subir à medida que há mais dinheiro no mercado para a mesma quantidade de bens. Os grupos que recebem o dinheiro recém-impresso primeiro (como indústrias de munição durante a guerra) ganham uma vantagem temporal, podendo comprar mercadorias a preços antigos, enquanto sua renda já aumentou. Por outro lado, grupos que recebem esse dinheiro muito mais tarde, como professores e religiosos, são severamente prejudicados, pois sua renda não acompanha a elevação dos preços.

Mais cedo ou mais tarde, a inflação leva inevitavelmente ao fim da moeda, como ocorreu na Alemanha em 1923, onde o marco perdeu todo o valor. A solução para a inflação é clara: equilibrar o orçamento do governo e abandonar as políticas inflacionárias. O padrão-ouro, por exemplo, é apresentado como uma forma de proteção contra governos esbanjadores, pois limita a quantidade de dinheiro disponível, tornando independente das políticas governamentais.

Intervencionismo

O intervencionismo é a interferência do governo nos fenômenos de mercado, como preços, salários, taxas de juro e lucro, com o objetivo de restringir a supremacia do consumidor. Historicamente, governos recorreram a controles de preços, especialmente em tempos de inflação.
Exemplos históricos, como o do imperador romano Diocleciano e o da Revolução Francesa, mostram que, apesar de métodos severos (incluindo a pena de morte), os controles de preços fracassaram espetacularmente, levando à desintegração econômica e à escassez de bens.

A lógica por trás desse fracasso é simples: Ao fixar um preço máximo abaixo do preço de mercado (como o do leite), a demanda aumenta, mas a oferta diminui, pois os produtores marginais começam a sofrer prejuízos e reduzem a produção.  Isso gera escassez e longas filas. Para resolver a escassez do primeiro bem, o governo é forçado a intervir nos preços dos fatores de produção desse bem (ex: forragem para o leite). Essa cadeia de intervenções se expande, exigindo o controle de todos os preços, incluindo salários e luxos. O resultado inevitável de um intervencionismo contínuo é o socialismo, onde o governo determina tudo no sistema econômico.

A ideia de um sistema de meio-termo entre socialismo e capitalismo é um contra-senso; a intervenção isolada sempre gera situações piores do que as que se pretendia abolir. Além disso, o intervencionismo cria as condições para a formação de cartéis nacionais, levando o governo a, paradoxalmente, lutar contra o que ele mesmo gerou.

Socialismo

No sistema socialista, o governo é totalitário, controlando tudo. Não há liberdade para o indivíduo escolher sua carreira, pois as decisões são tomadas por decreto governamental. O termo “planejamento”, quando usado pelos socialistas, refere-se a um plano central único, feito pelo governo, que impede todo planejamento individual. Isso transforma o cidadão em um soldado, obrigado a cumprir ordens.

Uma das maiores falhas do socialismo é a impossibilidade de cálculo econômico. Em uma economia de mercado, os preços em dinheiro fornecem informações vitais aos empresários sobre os custos dos fatores de produção, permitindo-lhes tomar decisões eficientes. Ao abolir o mercado, os socialistas eliminam a base para esses cálculos, tornando inviável a gestão complexa de uma economia moderna.

A experiência soviética não prova a viabilidade do socialismo, pois a Rússia operava em um mundo com preços de mercado, utilizando-os para seu planejamento. Em contraste, o padrão de vida na Rússia Soviética era incomparavelmente inferior ao dos Estados Unidos, onde a inovação e a elevação do padrão de vida são impulsionadas por milhares de empresários buscando lucro, e não altruísmo.

Liberdade Econômica

A liberdade econômica é a base de todas as outras liberdades (expressão, pensamento, imprensa, culto). Ela significa que os indivíduos têm o poder de escolher seu próprio modo de se integrar à sociedade e sua própria carreira. No capitalismo, o consumidor é o verdadeiro soberano, e as empresas prosperam apenas se satisfazem seus desejos.

A chave para um maior padrão de vida é o aumento do capital investido per capital. Este capital pode vir de duas fontes:
1. Acumulação interna: Poupança e investimento dos próprios cidadãos. No entanto, altas tributações, especialmente as progressivas, podem consumir grande parte da renda que seria poupada e investida. Além disso, a acumulação interna de capital só ocorre quando há uma unidade monetária estável, ou seja, nenhuma modalidade de inflação.
2. Investimento externo: O investimento de capital estrangeiro desempenhou um papel primordial no desenvolvimento de muitas nações. Ferrovias na Europa, Estados Unidos e Argentina foram construídas com capital britânico. O investimento externo é feito na expectativa de que não será expropriado. No entanto, a hostilidade e a expropriação de capital estrangeiro no século XX prejudicaram gravemente esse processo.

Políticas como o protecionismo e a violência sindical (eufemisticamente chamada de barganha coletiva) não promovem a melhoria das condições de vida ou o aumento de capital. A verdadeira solução é ter mais capital e liberdade para empregá-lo sob a disciplina do mercado, não do governo.

Conclusão

As mudanças políticas e econômicas são uma consequência inevitável da mudança das ideias políticas e econômicas. No Século das Luzes, o otimismo e a crença na liberdade econômica e nos governos representativos levaram a um progresso sem precedentes. Entretanto, no século XX, ideologias intervencionistas e socialistas, muitas vezes desenvolvidas por intelectuais, levaram à deterioração do parlamentarismo e ao surgimento de grupos de pressão que buscam privilégios à custa da nação como um todo.

A decadência de civilizações, como a do Império Romano, pode ser atribuída ao intervencionismo e à inflação. A diferença crucial hoje é que as ideias que causam esses problemas foram formalizadas e são ensinadas, o que significa que ideias podem ser combatidas por outras ideias.

É nosso dever lutar contra as más ideias – o confisco de propriedade, o controle de preços, a inflação, a violência sindical – e substituí-las por ideias melhores, como as dos economistas clássicos que impulsionaram o capitalismo no século XIX. Nossa civilização não está condenada; ela sobreviverá se for respaldada por ideias melhores, que a nova geração tem o potencial de engendrar.

A liberdade, tanto política quanto econômica, tem um futuro promissor, mas isso depende da compreensão e da defesa de princípios econômicos sólidos pela opinião pública e pelos intelectuais.

Capítulo 05 (Liberdade)

Muitas vezes, ouvimos que programas de liberdade econômica são “negativos” por serem “contra” diversas coisas, como o socialismo ou a intervenção governamental. No entanto, defender a liberdade é, na verdade, uma postura positiva, pois significa ser a favor do direito de escolha e da autonomia. Essa perspectiva é crucial para entender por que alguns países são mais prósperos que outros.

Padrão de Vida

Hoje, a disparidade nos padrões de vida entre países é evidente, com muitos se autodenominando “em desenvolvimento” e buscando ajuda. Contudo, a diferença não se deve à inferioridade dos trabalhadores ou empresários. Um trabalhador que migra de um país com salários baixos para os Estados Unidos, por exemplo, rapidamente alcança os padrões salariais locais, provando que não são suas qualidades pessoais, mas as condições do país que determinam sua remuneração.

A chave está na disponibilidade de capital e na quantidade de bens de capital investidos per capita. Os salários são determinados pela produtividade marginal da mão-de-obra, e uma pessoa com instrumentos de alta qualidade e eficiência pode produzir muito mais em uma hora do que outra com ferramentas antiquadas. Empresários em países em desenvolvimento sabem que melhores instrumentos seriam mais lucrativos, mas o principal impedimento é a escassez de capital.

Representação da Guerra Civil Americana: exemplo de liberdade para alguns
Representação da Guerra Civil Americana: exemplo de liberdade para alguns

Exemplo Histórico

Historicamente, a Grã-Bretanha foi pioneira na acumulação e investimento de capital, alcançando um padrão de vida elevado muito antes de outras nações. Mas o maior acontecimento econômico do século XIX foi a expansão do investimento externo. Isso permitiu que países menos desenvolvidos não tivessem que imitar lentamente os métodos britânicos mais antigos, mas sim recebessem capital diretamente para construir infraestrutura e indústrias modernas.

Foi o capital britânico que financiou a construção de ferrovias na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina, além de companhias de gás e outras indústrias, impulsionando o progresso. Os Estados Unidos, por exemplo, se desenvolveram maciçamente com a ajuda do capital britânico, transformando-se de um importador para um exportador de capital ao longo do tempo. O investimento estrangeiro foi essencial para a implantação de indústrias modernas em quase todos os países, exceto a Inglaterra.

A partir da Primeira Guerra Mundial, infelizmente, iniciou-se um período de hostilidade contra o investimento estrangeiro, com governos recorrendo à expropriação direta ou indireta, sem qualquer proteção legal efetiva para os investidores. A mentalidade mudou, e o investidor estrangeiro passou a ser visto como um “explorador”. Casos como a expropriação de campos de petróleo no México e a situação na Argentina ilustram essa tendência.

A Índia é um exemplo notório: apesar de ter se beneficiado de capital e métodos modernos britânicos no passado, o governo indiano passou a ser hostil aos capitalistas estrangeiros, criando empecilhos e até declarando intenções socialistas que desencorajam novos investimentos, oferecendo garantias de não expropriação por apenas um curto período.

Além da hostilidade ao capital externo, a acumulação interna de capital também é sufocada por impostos extremamente altos e dupla tributação sobre lucros e dividendos. Nos Estados Unidos, a maior parte do lucro das empresas é consumida em tributos, em vez de ser poupada e investida. Enquanto um país rico pode suportar essas “más políticas”, nações em desenvolvimento são drasticamente prejudicadas pela falta de poupança interna e pela aversão ao capital estrangeiro, o que impede a industrialização e a elevação do padrão de vida. Isso gera um crescente descrédito global na viabilidade de investir no exterior.

Capital e Prosperidade

Para que os países em desenvolvimento alcancem a prosperidade dos Estados Unidos, falta uma única coisa: capital. Contudo, é crucial que esse capital seja empregado sob a disciplina do mercado, e não do governo. É necessário tanto acumular capital interno quanto viabilizar o ingresso de capital estrangeiro. A poupança interna depende de um sistema econômico com unidade monetária estável, ou seja, sem inflação.

Medidas como o protecionismo, tarifas e controles de câmbio são ineficazes; elas impedem a importação de capital e a industrialização. O mesmo vale para o sindicalismo ou decretos de pisos salariais, que não conseguem elevar os padrões de vida de forma sustentável e podem até gerar desemprego. A única maneira de alcançar um padrão de vida mais alto é aumentar o capital investido per capita.

Em um mundo com barreiras à migração de pessoas, a migração de capital torna-se o principal caminho para a equiparação salarial global. Capitalistas tendem a investir onde a mão-de-obra é abundante e barata, e ao fazê-lo, provocam uma tendência de elevação dos salários locais, como já ocorreu em diversos países.

Não há razão para pessimismo em relação aos países “subdesenvolvidos”. A meta de elevar o padrão de vida em toda parte é possível, mas não através de atalhos como protecionismo, intervenção governamental ou violência sindical. É um processo lento, mas alcançável. A Suíça, um pequeno país sem recursos naturais, é um exemplo notável de como uma política capitalista consistente ao longo dos séculos levou ao mais elevado padrão de vida na Europa continental e a um centro de civilização.

Conclusão

Para que a prosperidade seja alcançada globalmente, é imprescindível adotar boas políticas que estimulem a acumulação de capital e sua livre circulação. Uma possível solução para proteger o investimento externo seria a criação de estatutos internacionais que o retirassem da jurisdição nacional, possivelmente por meio das Nações Unidas, embora reconheça-se a dificuldade atual dessa abordagem. A situação não é desesperadora; é preciso apenas compreender que o capital, sob a disciplina do mercado, é o motor da prosperidade.

Capítulo 06 (Civilização)

No Século das Luzes, o otimismo imperava na civilização ocidental. Filósofos e estadistas acreditavam que a instauração de governos representativos constitucionais e a liberdade econômica inaugurariam uma nova era de prosperidade, progresso e liberdade, onde guerras e revoluções se tornariam desnecessárias. Havia a convicção de que uma nação livre não buscaria conquistas e que os líderes se empenhariam no bem-estar de toda a nação e das demais. As discussões políticas em assembleias legislativas e campanhas eleitorais eram vistas como tentativas de persuadir e buscar o bem comum. Os fundadores do governo constitucional moderno concebiam que cada legislador deveria representar a nação como um todo, não apenas os interesses de seu distrito.

No entanto, muitas dessas expectativas foram “atrozmente estilhaçadas”. O século XX, em particular, trouxe um ressurgimento de conflitos e uma frustração com o sistema constitucional. O texto argumenta que a deterioração do parlamentarismo e das instituições representativas não é um fenômeno isolado, mas uma consequência direta de mudanças radicais nas ideias políticas e econômicas, especialmente a ascensão do intervencionismo.

Políticos: amigos ou inimigos da civilização?
Políticos: amigos ou inimigos da civilização?

Ascensão dos Grupos de Pressão

A filosofia intervencionista, que substituiu a ideia de que o governo não deveria interferir nas condições econômicas do mercado, postula que é dever do governo apoiar e conceder privilégios a “grupos especiais”. Isso levou à substituição dos “partidos políticos autênticos” por “grupos de pressão”. Um grupo de pressão é definido como um conjunto de pessoas que busca obter um privilégio à custa do restante da nação, como tarifas sobre importações ou leis que impeçam a concorrência.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o sistema bipartidário tradicional é, na verdade, uma “camuflagem da situação real”, onde ambos os partidos abrigam representantes dos mesmos grupos de pressão. Esses representantes tendem a cooperar mais com colegas do mesmo grupo de pressão, mesmo que sejam de partidos adversários, do que com seus próprios companheiros de partido. Como todo grupo especial que busca privilégios é necessariamente uma minoria, essas minorias só têm êxito formando coalizões com outros grupos de pressão nas assembleias legislativas.

Essa dinâmica tem consequências profundas:

  • Representação distorcida: Em órgãos legislativos, há representantes de interesses específicos (trigo, carne, prata, petróleo, sindicatos), mas “só uma coisa não está representada no legislativo: a nação como um todo”.
  • Influência na política externa: Interesses de grupos de pressão podem determinar até mesmo a política exterior de uma nação, como o exemplo do açúcar nos EUA, que prejudica não só os consumidores internos, mas também as relações com países parceiros interessados em vender açúcar.
  • Aumento dos gastos públicos e dificuldades fiscais: O sistema de grupos de pressão contribui para um constante aumento dos gastos públicos, enquanto os representantes, para não “onerar suas bases de sustentação política”, não desejam estabelecer impostos pesados. Isso torna “quase impossível, a quase todos os governos, deter a inflação”.

A crítica à democracia atual, que se queixa de suas deficiências, na verdade, aponta para os problemas de uma democracia onde o intervencionismo é a política que rege o país. O autor lamenta que, enquanto antes se falava em liberdade nos parlamentos, hoje se discute “a majoração do preço do amendoim”, o que não representa uma mudança para melhor.

Lições do Império Romano

O declínio da liberdade em tantos países remete à “terrível ditadura” sofrida pela Alemanha no passado recente e à “decadência da nossa civilização”. O autor refuta as teorias de Spengler e Toynbee de que as civilizações inevitavelmente decaem como plantas, argumentando que as civilizações são interdependentes. No entanto, ele traça um paralelo com a deterioração da civilização romana no século III d.C., que também foi destruída por algo “semelhante, quase idêntico” aos perigos atuais: intervencionismo (controle de preços) e inflação (por desvalorização da moeda). A falta de compreensão romana sobre a divisão do trabalho e as consequências da inflação levou ao retorno da população urbana ao campo e à decadência das cidades.

A grande diferença e, paradoxalmente, a esperança, é que as medidas que causaram a desintegração de Roma não foram premeditadas por “doutrinas condenáveis mas bem formalizadas”. As ideias intervencionistas, socialistas e inflacionistas de hoje, por outro lado, foram “engendradas e formalizadas por escritores e professores” e são ensinadas nas universidades. O autor ressalta que a “revolta das massas” na verdade foi “feita pelos intelectuais, que, não sendo homens do povo, elaboraram doutrinas”.

Conclusão

Assim, a solução reside na luta contra as más ideias. O autor defende que “ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão“. Assim como as “notáveis realizações do capitalismo” no século XIX foram fruto das ideias de economistas clássicos como Adam Smith e David Ricardo, a substituição de “más ideias por ideias melhores” é a chave para a sobrevivência e o futuro da nossa civilização. O autor expressa confiança de que a geração vindoura conseguirá fazer isso, restaurando a liberdade política e econômica.

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