resumo livro a riqueza das nações

Resumo: A Riqueza das Nações – Completo

Tempo de leitura: 55 minutos

A Riqueza das Nações, publicada por Adam Smith em 1776, é a obra considerada por muitos como a fundadora da economia moderna. O livro introduz conceitos cruciais como a divisão do trabalho, a mão invisível do mercado e a importância da liberdade individual para a prosperidade das nações. Em sua essência, Smith argumenta que a busca pelo interesse próprio, em um ambiente de livre concorrência, gera riqueza e benefício para toda a sociedade.

Você já ouviu falar sobre o conceito de mais-valia, certo? Mas sabia que alguns economistas atribuem a compreensão de Karl Marx do lucro em “O Capital” a Adam Smith, o pai do Liberalismo? Isso nos mostra o quão importante é entender a história da economia para entendermos o presente.

Sem mais delongas, bora lá!

Nota do autor:

Recomendo abordar esta análise despido de conceitos prévios. Minha metodologia de resumo busca mimetizar a voz do autor: eu escrevo como se fosse o próprio autor, mergulhando em sua lógica e defendendo seus pontos de vista para que você compreenda.

 

É importante ressaltar que as afirmações contidas no texto refletem o pensamento do autor e não necessariamente as minhas opiniões pessoais ou convicções ideológicas.

  • Se você já conhece esta linha de pensamento: Desafio-o a ler com criticidade, sem concordar automaticamente com cada linha, evitando o fanatismo.

  • Se você discorda destas ideias: Convido-o a suspender o julgamento imediato para absorver a estrutura lógica proposta.

O objetivo aqui não é converter ou convencer, mas oferecer um material denso para que você teça suas próprias conclusões.

Capítulo 1 (Divisão do Trabalho)

Primeiramente, preciso dizer que o primeiro capítulo de A Riqueza das Nações é o que vai nos mostrar, com o clichê do exemplo dos alfinetes, como a divisão do trabalho opera. Porém, é importante que você não ache que este livre se resume à divisão do trabalho ou questões simplistas. Sendo assim, vamos ao capítulo.

Economia primitiva

Inicialmente, parece que toda a evolução de uma nação ou de uma tribo são frutos da divisão do trabalho. Parece fácil dizer que a divisão do trabalho é mais fácil de ser visualizada em uma grande fábrica, como uma de automóveis, mas não é exatamente assim. 

A divisão do trabalho pode ser vista de diversas formas e em diversos períodos da história humana. Vemos que, em economias primitivas, homens caçadores eram fortes e, por isso, tinham vantagens em caçar quando comparados com crianças, mulheres, idosos ou doentes. No entanto, existiam homens que não eram tão fortes, mas tinham boas habilidades na produção de arcos, por exemplo. 

Entretanto, a natureza da cooperação humana fez com que o homem mais forte ou hábil se dedicasse somente à caça. Estes fizeram isso pois perceberam que existia uma vantagem comparativa ali. Isto é, perceberam que valia mais a pena caçar mais até do que era necessário para sua família e vender essa caça aos produtores de arcos. 

Fazendo escambo, puderam se dedicar apenas à caça, enquanto o o produtor de arcos, apenas isso. Essa característica humana faz com que nações mais evoluídas fossem as que apresentassem maior nível de complexidade da divisão do trabalho. 

Economia evoluída

Logo após essa divisão do trabalho primitiva, podemos evidenciar a famosa produção de alfinetes em uma economia evoluída. Agora, não temos mais a divisão de objetivos ou profissões, mas a divisão de pequenas tarefas que buscam a produção de algo. 

Portanto, no caso da produção de alfinetes, o objetivo é produzir alfinetes, e as tarefas são o que caracterizam a divisão do trabalho: uma pessoa solta o arame, outra afina, mais algumas cortam; para fazer a cabeça, no entanto, precisa-se de um trabalho mais complexo.

Exemplo prático

Contudo, podemos ir mais a fundo. Imagine, por exemplo, eu, quem estou escrevendo esse artigo: estou no computador, meus livros estão apoiados numa estante de madeira parafusada na parede. Vou parar aqui para destrinchar esses três objetos: computador, livro e estante.

Certamente que os livros foram feitos por um autor, que usou papel e caneta ou um computador. No caso de ter sido caneta e papel, precisou existir uma série de pessoas e empresas para produzir a tinta da caneta. Do mesmo modo, para produzir o plástico que rodeia, a bolinha de metal da ponta. Isso é o mínimo para a produção de uma caneta simples. Essas são as etapas mínimas para fazer somente a tinta:

Para produzir cada um desses insumos, precisou de outra linha de produção. Se quisermos produzir o plástico que envolve a caneta, iremos cair em outra linha de produção individual que terá mais insumos. A bolinha de metal da ponta da caneta, também. Percebe a quantidade de etapas e, portanto, trabalhadores divididos em diversos setores são precisos para produzir uma única caneta? É simplesmente incalculável.

Espera, eu não acabei. Por enquanto, só falei da caneta que o escritor do meu livro usou para começar escrever. Ainda tem o livro, que usa diversos materiais além do papel. Esqueci de mencionar o computador que tem plástico, e diversos materiais tecnológicos que precisam de vários insumos. A madeira rustica da minha prateleira fui eu mesmo quem fiz, mas, mesmo assim, precisou que alguém para plantar, cuidar, cortar, fatiar e passar. 

Consegue entender que é impossível calcular  a quantidade de pessoas necessárias para eu poder estar no conforto do meu quarto escrevendo esse artigo? Faça isso você mesmo antes de dormir e tenho certeza que vai ver o dia nascer e não vai ter terminado de calcular.

Numa sociedade primitiva, eu estar no conforto do meu quarto seria simplesmente impossível, pois, como disse na primeira frase do capítulo, “parece que toda a evolução de uma nação ou de uma tribo são frutos da divisão do trabalho“. Melhor ainda, vou usar a frase do próprio Smith:

“O maior aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados da divisão do trabalho.”

Evolução da divisão do trabalho

Certos estamos de que a divisão do trabalho aumenta a qualidade de vida das pessoas. Entendido isso, vamos entender o que faz a divisão do trabalho atingir maiores patamares. Isto é: 1) a maior destreza do trabalhador, 2) o ganho de tempo em cada serviço e 3) as máquinas que aumentam a eficiência.

Maior destreza em cada trabalhador

A divisão do trabalho faz com que as funções sejam cada vez mais simples. Um trabalhador que passou a vida produzindo pregos pode produzir, por exemplo, 300 pregos num único dia. Ele faz todos os processos necessários prego por prego.

Agora vamos imaginar que alguns rapazes que costumavam vadiar assistindo os jogos do Vasco são chamados para produzir pregos. Nenhum deles têm ideia de como produzir um único prego, mas sabem manejar um martelo minimamente. Digamos que existam cinco processos dos quais o trabalhador experiente domina muito bem. Esses cinco processos passam por cortar, bater, amolar, limpar e polir. Cada um dos cinco garotos vascaínos terá que se preocupar em fazer uma única coisa. O que só bate, vai arrumar formas mais eficientes de bater; já o que corta, vai cortar muito mais rápido ao longo do tempo e assim vai a fora. 

Dessa forma, os cinco vadios vão conseguir produzir muito mais que o trabalhador experiente. Claro, se os pôr para produzir um prego sozinhos, vão passar vergonha. No entanto, o trabalho é conjunto e cada um só precisa lamber a própria caceta. Facilmente esses cinco conseguirão produzir mais de 1.000 pregos por dia em suas primeiras semanas. 

Ganho de tempo na troca de trabalhos

Os ganhos da simplificação dos serviços é enorme. Imagine um único homem que trabalha numa fazenda. Na agricultura não se é preciso dividir tanto o trabalho e, por isso, as fábricas evoluem mais que as fazendas em vários sentidos.  Esse trabalhador do campo acorda pela manhã e tira leite da vaca, depois sai desse serviço e, não sei, vai preparar a terra; depois disso, sai dessa ultima função, troca de ferramentas e começa plantar; mais uma vez, troca de função e ferramentas para só aí começar seu outro serviço. 

Numa fábrica, o trabalhador trabalha apenas martelando ou cortando ou qualquer outra coisa, mas sempre uma única coisa. Assim, ele nunca precisa gastar o tempo de transição. Nesse processo, geralmente é o tempo de tomar aquele cafézinho e falar da novela com o outro companheiro que também está trocando de turno. Quanto maior a divisão do trabalho, menores as distrações no trabalho, maior a dedicação e, consequentemente, maior a eficiência.

Invenção de máquinas

Quando um trabalhador, depois de aumentado sua destreza e mais concentrado, começa pensar em como melhorar a qualidade e a velocidade com as quais faz seu trabalho, Adam Smith usa um exemplo maravilhoso para entendermos esse desenho:

Nas primeiras bombas de incêndio um rapaz estava constantemente entretido em abrir e fechar alternadamente a comunicação existente entre a caldeira e o cilindro, conforme o pistão subia ou descia. Um desses rapazes, que gostava de brincar com seus companheiros, observou que, puxando com um barbante a partir da alavanca da válvula que abria essa comunicação com um outro componente da máquina, a válvula poderia abrir e fechar sem ajuda dele, deixando-o livre para divertir-se com seus colegas.

Contudo, nem sempre as evoluções técnicas são feitas por pessoas que trabalham no setor. Para isso, pessoas que trabalham apenas estudando máquinas e criando novas são contratadas para pesquisas. Smith os chama de filósofos, mas hoje podemos dizer que são os engenheiros e pesquisadores. 

Conclusão

Por fim, Smith diz que a complexidade de funções que a divisão do trabalho traz às nações é grande o suficiente para diminuir as diferenças entre classes sociais. O leque de produtos e serviços disponíveis a um trabalhador comum hoje não é tão diferente de um rei africano que controla a vida de 10.000 selvagens nus. Na verdade, hoje, um trabalhador comum tem muito mais produtos e serviços do que um rei 200 anos atrás.

Isso significa que a vida e os confortos que as cidades urbanas traz não é fruto do governo ou de qualquer intervenção divina, mas sim da cooperação e da divisão do trabalho.

a riqueza das nações capitulo 1 divisão do trabalho
a riqueza das nações capitulo 1 divisão do trabalho

Capítulo 2 (Princípio da Divisão do Trabalho)

A divisão do trabalho que falamos no capítulo anterior deriva de algo natural dos seres humanos. Não vamos debater se isso é natural ao ser humano como a habilidade de falar ou raciocinar. Muito provavelmente é isso mesmo, mas vamos nos interessar mais pelo princípio da divisão do trabalho que pela causa.

Animal x Homem

Animal

É comum pensarmos que animais também têm essa habilidade de fazer trocas voluntárias. Em algum grau, podem até ter, mas não como nós humanos. Um animal pode “cooperar” com um outro animal na caça de algum outro, como leões ou lobos, mas isso é instinto, não raciocínio lógico. Não existe um planejamento anterior para àquela caça.

Os animais selvagens podem até cooperar em determinado período, mas maior parte do tempo eles passarão sozinhos. Os momentos de cooperação de um animal é apenas para atingir um objetivo específico, não para construir algo sólido. 

Podemos dizer que isso é verdade quando observamos que a construção de uma família humana é cheia de afeto, conversas, sexo sem motivo de reprodução e outras coisas mais. No caso de um animal, são poucas as espécies que não se cruzam apenas por reprodução e logo se guiam por seus próprios caminhos.

Essa falta de cooperação constante e divisão do trabalho por parte dos animais se dá pelo fato de que eles são muito iguais entre as espécies. Vários lobos podem ser mais fortes e rápidos que os humanos, mas eles não são diferentes entre si para poderem dividir o trabalho de forma a absorver os talentos individuais. 

Homem

Podemos também pensar em um animal doméstico que quer comida faz aquela carinha de dó. No entanto, ele pode fazer isso algumas vezes, mas não será sempre que conseguirá o que quer pedindo esmolas. 

Os humanos, da mesma forma, pela esmola, conseguirão apenas viver na miséria e talvez morrerão de fome ou sede. Para que nós humanos consigamos melhorar de vida e adquirir as vantagens das diferenciações de talentos entre a espécie, precisaremos não fazer carinha de dó, mas acariciar o ego das pessoas.

Daí chegamos à famosa frase de Smith:

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.”

Algumas pessoas traduzem isso como “não existe almoço grátis” (muitos atribuem essa frase a Smith, mas na verdade ela é de Milton Friedman, que, em 1930, publicou o livro “There’s No Such Thing as a Free Lunch“), mas o que Smith quis dizer é que se queremos aproveitar das vantagens dos talentos alheios, precisaremos fazer com que nosso companheiro perceba alguma vantagem em nos dar o que queremos.

Assim sendo, podemos esperar que um mendigo tenha suas necessidades atendidas pela caridade, mas nem todas as vezes que precisar de algo, conseguirá. Ele pode ter sede e alguém o dar água, ou ter fome e alguém lhe dar comida, mas não serão todas suas necessidades que serão atendidas assim. 

Por isso, as esmoladas que recebe, troca por outras coisas que necessita. Se ganhar um casaco velho, pode trocar por novos casacos velhos ou o que quiser. Assim, os seres humanos, pobres ou ricos, se assemelham em sua propensão a trocar voluntariamente o que é subjetivamente mais valioso para ele. Este é o princípio da divisão do trabalho.

Diferença fundamental para o princípio

Uma criança, ao começar brincar com seus amigos, não vê muita diferença entre eles. São todos mais ou menos inteligentes e não têm personalidades e habilidades muito diferentes umas das outras. No entanto, ao passar para a adolescência ou juventude, começa-se perceber que um é mais inteligente ou forte que o outro. Um é mais alto, outro é mais forte, outro ainda é evidentemente mais inteligente.

Portanto, estas diferenças movem um grupo de adolescentes ou jovens a, caso estejam, por exemplo, perdidos numa ilha, usarem das suas diferentes habilidades para sobreviver. O alto irá pegar coisas em lugares altos, o forte usará sua qualidade para carregar coisas, e o inteligente provavelmente não fará tantas coisas práticas quanto os outros, se guardando a pensar ou gerir o grupo de forma sábia.

Isso foi o que fez a sociedade avançar de nômades caçadores de mamutes até chegar a sociedade mais ou menos civilizada como vemos hoje. Assim segue a sociedade até o que temos hoje: pessoas dependentes de trocas voluntárias, ou seja, dependentes de contratos e comércio. A sociedade caminha por uma dependência mutua que é totalmente diferente das dos animais.

Conclusão

Por fim, o princípio que dá origem à divisão do trabalho não é uma vontade comandada por agentes do governo ou por empresários inteligentes que participaram da Revolução Industrial. O que nos faz evoluir como pessoas e sociedade é o princípio da própria natureza humana.

a riqueza das nações capitulo 2 principio da divisão do trabalho
a riqueza das nações capitulo 2 principio da divisão do trabalho

Capítulo 3 (Limitações da Divisão do Trabalho)

Conversamos anteriormente sobre a divisão do trabalho ser fruto da natureza humana. Quando juntos, seres humanos conseguem usar das habilidades alheias para ter melhores e mais baratos produtos e serviços, ou seja, conseguem formar o mercado. 

Limitação da divisão do trabalho

Mercado

É importante notarmos que o mercado é limitado pela quantidade de pessoas e de habilidades existentes nele. Também podemos dizer que o mercado é quem é o limitador da divisão do trabalho. Não entendeu direito? Vamos pôr em prática esse ponto.

Digamos que existam 500 pessoas numa pequena cidade e eles são afastados de todas as outras possíveis cidades em volta. Essas pessoas vão poder se dedicar a fazer atividades individuais. Provavelmente existirão alguns açougueiros, alguns padeiros, mas nada muito exagerado. Nessa cidade, se um comerciante tiver a capacidade de produzir 10.000 pregos numa semana, provavelmente nunca conseguiria vender todos eles em 1 ano inteiro por falta de demanda, e por isso sua capacidade produtiva e qualidade nos serviços será menor e menos eficiente.

Agora imagine uma cidade com 100 pessoas. Será que agora existirão alguns açougueiros e padeiros? Talvez sim. Mas e uma cidade com 10 pessoas? É bem certo imaginarmos que nenhuma dessas 10 pessoas têm uma profissão só, e quem quer comer carne provavelmente tem que ser caçador, açougueiro e cozinheiro.

O que quero dizer é que em menores mercados, não se pode ter o luxo de se dedicar apenas a uma profissão, já que não se tem tantas pessoas e habilidades para serem ofertadas, tampouco demanda suficiente para absorver uma produção em massa.

Mercado ilimitado

Já entendemos que a divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado. Para aumentarmos a divisão do trabalho, precisamos melhorar o transporte para conseguirmos atingir outras cidades. Assim, o produtor de uma cidade minúscula que consegue fazer 10 mil pregos numa única semana nunca irá conseguir vender nem metade disso em sua cidade, pois não existem compradores para isso. Mas e se ele conseguir compradores de uma cidade grande uns 200 km de distância com demanda para mais de 50 mil pregos por semana?

Podemos dizer como certo que todas as civilizações começaram perto do mar. Mesopotâmia, Brasil, Estados Unidos e até mesmo no Minecraft. Isso se deve pela facilidade de plantio e coleta de animais marítimos. Mas será que é só isso? Adam Smith diz que existe algo mais importante ainda: o comércio. Eu poderia tentar explicar, mas nessa parte do livro Smith explicou tão bem que vou deixar vocês com a citação dele:

“Uma carroça de rodas largas, servida por dois homens e puxada por oito cavalos, leva aproximadamente seis semanas para transportar de Londres a Edimburgo — ida e volta — mais ou menos 4 toneladas de mercadoria. Mais ou menos no mesmo tempo um barco ou navio tripulado por seis ou oito homens, e navegando entre os portos de Londres e Edimburgo, muitas vezes transporta — ida e volta — 200 toneladas de mercadoria. Portanto, seis ou oito homens, por transporte aquático, podem levar e trazer, no mesmo tempo, a mesma quantidade de mercadoria entre Londres e Edimburgo que cinquenta carroças de rodas largas, servidas por 100 homens e puxadas por 400 cavalos”

Entendendo que precisamos aumentar o mercado pela evolução do transporte, agora podemos aumentar a capacidade produtiva e a divisão do trabalho. O comerciante que conseguia fazer 10 mil pregos por semana agora pode vender o que puder na própria cidade, e o restante ele vende para outros mercados. Ele pode contratar mais pessoas e aumentar sua produção o quanto puder.

comparação da malha ferroviária dos estados unidos e brasil

Agora você entende o porquê naquelas fotos do século XX e XIX nos Estados Unidos vemos vários trens? Trens não significam luxo, significavam e continuam significando eficiência lojística e escoamento de produtos. Se todas as grandes e pequenas cidades conseguem alcançar de forma eficiente e barata qualquer lugar do mundo, qual o limite para a divisão do trabalho? Voltamos ao início: 

“O maior aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados da divisão do trabalho.”

O que isso significa? Que mais avançada, próspera e produtiva é uma civilização quanto mais avançada é a divisão do trabalho; e essa divisão do trabalho é maior ou menor de acordo com sua limitação. Quais os limites? O mercado. Qual o remédio para diminuir essa limitação? O transporte.

a riqueza das nações capitulo 3 limites da divisão do trabalho
a riqueza das nações capitulo 3 limites da divisão do trabalho

Capítulo 4 (Origem do Dinheiro)

Após plenamente desenvolvida a divisão do trabalho, são pouquíssimas as coisas que um homem consome que é fruto de seu próprio trabalho. Em grande escala de uma sociedade evoluída, os homens trocam a parcela que excede as suas necessidades por excessos das necessidades de outras pessoas. Nesse ponto, tudo torna-se mercadoria, e daí temos uma sociedade comercial.

História dos metais

Como hoje parece óbvio, todas as civilizações foram atraídas naturalmente a usarem como medida e troca os metais, já que era mais conveniente. No início dos centros comerciais, usava-se o  escambo, seja uma pessoa vendendo um serviço por outro ou um animal por outro. Poderia até mesmo ser um serviço por um animal, quem sabe. 

No entanto, imagine que o menor animal com utilidade comercial fosse uma ovelha, mas o menor objetos de uso seja uma agulha. Como um homem poderá trocar uma ovelha por uma agulha? Terá que trocar partes de uma ovelha por uma agulha ou comprar agulhas o suficiente para valer uma ovelha. Ou seja, caímos num problema sem tamanho que só pode ser resolvido por uma unidade de medida que pode ser fracionada em pequenas partes.

Foi usado o sal, como sabem, mas também objetos pequenos como o prego. Mas o que mais agradou o público em geral foram os metais, já que eles estragavam com menor facilidade (ou mesmo não estragavam), eram de difícil falsificação e podiam ser carregados em pequenos espaços. E o melhor: podiam valer grandes quantias (ouro) ou pequenas quantias (bronze)

Os primeiros países a usar os metais usavam o ferro, o bronze ou a prata. Tanto os metais mais brutos e rústicos quanto as mais preciosas tinham um problema: quem não se submetesse à tediosa tarefa da cunhagem estava sensível ao falseamento. Daí surgiram as casas de moeda, onde pessoas especializadas verificavam a autenticidade e a pesagem dos materiais.

Valor das mercadorias

Foi assim, portanto, que os países adotaram por completo o sistema de trocas em seus comércios. Os reis já aceitavam moedas invés de comida ou animais inteiros. Mas agora vamos avançar um pouco no assunto. Smith agora fala sobre o que é exatamente o valor das mercadorias e do dinheiro.

Valor de uso

Usaremos dois significados para a palavra valor: uma primeira chamada valor de uso, e uma segunda chamada de valor de troca. O valor de uso se refere a utilidade do bem. Vou dar um exemplo: é útil ter dinheiro, não? Claro que não, idiota! Presta atenção. Dinheiro tem valor de troca. Valor de uso se refere a bens como a água, comida ou roupas de frio.

Se a civilização acabar e não tiver ninguém pra comercializar, nada terá valor de troca, mas tudo terá valor de uso. A fogueira que acenderá no fim do mundo, as latas de sardinha que sobrarem depois do apocalipse, as roupas de frio, etc. Entendeu, certo?

Valor de troca

O valor de troca, agora sim, se refere ao dinheiro (ou alguma mercadoria que você troque por outra mercadoria ou serviço). Não preciso explicar melhor, já que esse é um conceito bem simples, mas vou usar o exemplo clássico pra fechar esse ponto:

Imagine que você está perdido no deserto, cheio de sede, e ache uma barra gigante de ouro. Você vai ficar feliz ou triste? Provavelmente feliz, mas aquilo não vai ter nenhuma utilidade, já que não existem pessoas para você trocar aquilo e, provavelmente, vai morrer antes de achar alguém se não beber água. No entanto, existe algo com maior valor de uso nessas horas que uma garrafona de água? 

Conclusão

Os conceitos de Smith foram explicados, e nos próximos três capítulos o autor debaterá três assuntos que ele considera importantes:

  1. No que consiste o real valor das mercadorias;
  2. Quais os componentes que compõem o valor real das mercadorias;
  3. O que faz com que o preço das mercadorias esteja abaixo ou acima do real, o que se chama de preço natural.

Por último, o autor pede que nos próximos capítulos os leitores sejam pacientes, já que ele já adverte que serão capítulos um tanto quanto maçantes, mas que ele terá que fazer por sua consciência. Eu, claro, vou tentar ao máximo fazer com que você que está lendo esse resumo não sinta essa chatice consciente de Smith, e vou deixar tudo o mais leve possível.

a riqueza das nações capitulo 4 origem do dinheiro
a riqueza das nações capitulo 4 origem do dinheiro

Capítulo 5 (Valor das Mercadorias)

Valor das mercadorias

Todo homem é rico ou pobre de acordo com a quantidade de coisas que consegue adquirir com o fruto de seu trabalho. No entanto, uma vez plenamente estabelecida a divisão do trabalho, dificilmente um homem usará de seus próprios talentos para ter seu conforto. Maior parte de seus confortos virão da compra do trabalho de outras pessoas.

Podemos dizer, então, que mais rico é um homem quanto mais trabalho alheio ele consegue comprar ou comandar. Consequentemente, o trabalho é a medida real do valor de troca de todas as mercadorias.

Adam Smith, quero ressaltar, dá muito espaço ao valor das mercadorias sendo medido pelo trabalho, bem no começo do capítulo ele diz uma das frases mais famosas de sua obra:

“O trabalho foi o primeiro preço, o dinheiro de compra original que foi pago por todas as coisas. Não foi por ouro ou por prata, mas pelo trabalho, que foi originalmente comprada toda a riqueza do mundo”

Riqueza é poder, como diz Hobbes. Mas o simples fato de ter dinheiro não traz nenhum poder político ao possuidor do dinheiro. O que ele quer quando tem dinheiro é o poder de exercer autoridade sobre o trabalho alheio. Da mesma forma, sua riqueza é exatamente proporcional a quantidade de coisas que pode adquirir. Essas coisas, claro, tem ligação direta com o trabalho alheio.

Valor Trabalho

Embora o trabalho seja a medida real do valor, ele não é exatamente a medida de valor de troca de mercadorias. Quando pessoas fazem escambo, se mede o esforço e quantidade de trabalho necessário para fazer cada produto. 

No entanto, nem sempre 1 hora par fazer o produto A demandou o mesmo esforço para em 1 hora produzir o produto B. Às vezes, 1 hora de um trabalho que demanda 10 anos de preparo pode ser mais árduo, cansativo ou dificultoso que 10 meses em um trabalho que não demanda quase nenhum esforço ou sapiência. Como é difícil calcular a diferença de valor entre mercadorias, geralmente essa diferença se dá em pechinchas da negociação, que no final das contas, na vida do trabalhador, não faz grande diferença.

Nesse sentido, podemos ter como certeza que as pessoas têm maior facilidade em trocar mercadorias por mercadorias, não mercadorias por trabalho. Isso se deve pelo fato de que as mercadorias são palpáveis e fáceis de calcular suas quantidades por outras quantidades. No caso do trabalho, trata-se de uma ideia abstrata difícil de ser calculada e entendida.

No entanto, quando as mercadorias param de serem trocadas por outras mercadorias e começam ser trocadas por dinheiro, as trocas se facilitam. Invés de pensar em trocar uma ovelha por cinco galinhas, se pensa em trocar uma ovelha por moedas e depois trocar as moedas em galinhas. Dificilmente um açougueiro irá levar suas carnes num bar para trocar por cervejas. Ele irá, obviamente, vender suas carnes para os interessado em troca de dinheiro e, após a semana ou o dia de trabalho, trocar o dinheiro por cerveja.

Valor do dinheiro

Entretanto, o ouro e a prata, como qualquer outro metal que fosse usado como medida de troca, varia seu preço de acordo com o tempo. No século XVI, por exemplo, a descoberta de minas na América reduziu em mais de 60% o valor do ouro e da prata na Europa. (E pensar que hoje, no século XXI, ainda se debate sobre expansão da base monetária como algo benéfico, mas isso é assunto pra outra hora.)

Smith continua, dizendo que o valor real das mercadorias não pode ser algo que varia de acordo com os benefícios da natureza. O valor do ouro e da prata podem variar de acordo com a escassez o abundância dos mesmos, mas o valor do trabalho (em condições de pleno vigor e possibilidade de atuação) se mantém constantes por toda a História. Sendo assim, ele conclui que o trabalho é o real valor das mercadorias; o ouro e a prata, ou seja, o dinheiro, são somente valores nominais das mercadorias.

Caso queira se aprofundar no assunto, esse é um dos pontos polêmicos do livro, onde liberais, libertários e teóricos marxistas debatem esse ponto sobre o valor-trabalho à exaustão. Esse é um ponto complexo e chato demais pra eu expor aqui pra vocês, mas achei válido deixar registrado para caso tenha interesse em se aprofundar. Segue algumas referências simples:

Boitempohttps://blogdaboitempo.com.br/2025/12/16/reconstruindo-a-historia-da-moderna-economia-politica/

Instituto Mises: https://mises.org.br/artigos/2329/ateoriadovalortrabalhoaindaassombraahumanidadeeseguecausandoestragos/

a riqueza das nações capitulo 5 teoria do valor

Capítulo 6 (Formação de Preços)

Composição dos preços das mercadorias

Sociedade primitiva

Em uma sociedade primitiva, a única coisa que pode ser levada em conta na determinação de preço de um produto ou um trabalho é  tempo dispendido nele. Um trabalho que demore 2 horas para ser concluído pode valer duas vezes mais que um produto que demande apenas 1 hora de trabalho.

No entanto, ao evoluir esta economia, a dureza do trabalho ou as habilidade necessárias para que o produto ou o trabalho sejam feitos, podem influenciar no valor total do produto. Se algo é feito em 1 hora, mas se é necessário 1 ano de estudos para saber fazer aquilo, pode-se supor que valha mais que um produto ou trabalho que dure 2 horas para ser concluído, mas não precise de experiência quase alguma.

Sociedade evoluída

Contudo, em sociedades mais avançadas, onde um trabalhador consegue acumular capital e quer empregar em alguma fabricação com funcionários, ele precisará calcular seus custos e receitas, a fim de realizar lucros. Esses lucros são diferentes de acordo com a quantidade de capital empregado ali. 

Por exemplo, um empresário pode despender R$ 10.000,00 em um comércio e, com 10% de lucro, terá R$ 1.000,00 de volta. Se um outro empresário, com a mesma taxa de retorno, despender R$ 100.000,00, lhe será retornado R$ 10.000,00. Na maioria das empresas de alimentação, com pouca diferenciação de produto e clientes, a taxa de retorno (lucro) tende a ser mais ou menos igual ao dos concorrentes.

Em todas as situações, a divisão dos gastos e receitas são classificados, de forma simples, entre custos de insumos, pagamento de salários e o lucro. O pagamento dos salários nem sempre representam a quantia exata do valor do trabalho dos funcionários, podendo ser menos ou mais. 

O lucro, por sua vez, é geralmente, quando a fábrica está estabelecida, maior que o dos funcionários, mesmo que o empresário não trabalhe tanto quando os funcionários. Isso se deve, claro, pelos riscos do empresário em ter investido o capital e adiantado o dinheiro para pagar os insumos e os salários. 

Lucros

Após as marcações de terra serem todas feitas numa economia e todas as propriedades serem privadas, além dos custos de insumos e salários, os empresários tem que pensar no pagamento de aluguel da terra (ou podemos chamar de arrendamento).

Os lucros, portanto, são calculados dessa forma simples, segundo Smith. A definição pode ter problemas quando um dono de fábrica também é dono da terra, mas ele não vê isso como um problema de cálculo.

Sendo assim, podemos dizer que da mesma forma como os lucros podem ser dividido entre, agora, terra, insumos, salários e lucros, os preços podem ser formados pela junção desse mesmo processo.

Renda da terra

Na fabricação de sucos de laranja de caixinha, são necessário o pagamento dos insumos (a fruta laranja), os funcionários e maquinário, e os lucros. Indo para trás, para a venda das laranjas são necessários o pagamento da terra, dos insumos para o plantio e colheita, os funcionários e o maquinário para a locomoção das laranjas para a fábrica.

Contudo, nesse processo adicionamos pessoas que não precisam colher para plantar, que são os donos das terras. Não tem nada de errado nisso, já que assim como o empresário aufere lucros adiantando o valor dos insumos e dos funcionários, o dono da terra adiantou a compra do local, sendo ele uma terra sem nada de especial ou mesmo um ponto comercial para uma padaria ou restaurante, tudo já montado e esperando o locatário usar e pagar o aluguel.

A prática

Smith diz que o preço final de um produto se dá pelo cálculo de todos esses processos, e o valor final tende a ser mais caro tanto mais processos são necessários. Ou seja, quanto mais insumos, funcionários, máquinas e lucros forem necessários serem pagos até o produto final, maior o preço do produto.

Indo para uma exemplificação, é por isso que se você quiser comprar um camarão de um pescador na praia, o preço será, por exemplo, R$ 20,00 o quilo, enquanto se quiser, na capital de São Paulo, comprar o mesmo quilo de camarão, pagará mais  de R$ 60,00, quem sabe.

Adam Smith, há mais de 200 anos já delineava essas diferenças de preços por estes motivos explicados aqui anteriormente. Se for na praia e comprar o quilo do camarão com o pescador, ele te dará um valor pensando no preço que pagou pelo barco, o trabalho que teve por quilo e auferir seu lucro. 

Se quiser comprar do seu apartamento em São Paulo, terá que pagar por: 1) trabalho do pescador, o salário do pescador e lucro do pescador; 2) trabalho do transportador, salário e maquinário do transportador e o lucro da empresa transportadora; 3) trabalho do empacotador, salário do empacotador e o lucro da empresa que embala para ficar bonitinho e limpo para você (a empresa pode até mesmo ser a mesma que fez o transporte, mas envolvem setores diferentes).

Conclusão

Finalmente, Smith mostra que o calculo da riqueza de uma nação deve se dividir entre essas três coisas: renda da terra, salários e lucros. Em algumas economias isso pode ser confuso, visto que às vezes o produtor da terra é dono dela, trabalhador dela e recebedor do lucro. Logo, a renda da terra é dele, o salário e o lucro também. Se usa, para entender esse caso, que esse produtor tem somente lucros. No entanto, podemos entender  uma nação sempre dividida mas ou menos dessa forma.

a riqueza das nações capitulo 6 anatomia do preco

Capítulo 7 (Preço Natural)

O preço médio que usualmente vemos no pagamento do uso da terra em determinadas regiões se denomina preço natural da renda da terra. Da mesma forma, o preço médio que se paga em determinados serviços é o preço natural dos serviços em questão. Ou seja, o preço que o mercado paga pela terra, salários e lucros se chama de preço natural.

Ao passar pelos estágios de formação do produto, temos o preço natural. Ao ir para o vendedor final, ele precisa calcular o preço que colocar no mercado, tendo em vista o custo natural da mercadoria e o lucro que colocará sobre o produto. É importante que seja de cargo total do comerciante o cálculo desse lucro, visto que esse este constitui sua renda total.

Embora o preço que o vendedor final use para mostrar seus produtos seja o menor possível para que ele não tenha prejuízo, ele não necessariamente é fixo. Portanto, o comerciante pode vender a um preço mais alto no limite em que ele possa vender a quantidade que precisa pra subsistir por determinado tempo.

O preço que esse comerciante coloca seus produtos a venda chama-se preço de mercado, que pode ser maior ou menor que o preço natural. O preço de mercado será maior ou menor que o preço natural de acordo com a oferta e a demanda.

Sendo assim, o vendedor olha o quanto ele tem de mercadorias para oferecer e quantas pessoas têm interesse em comprá-las pelo preço natural. Se existirem muitos interessados para comprar uma quantidade fixa de mercadorias ao preço natural, o preço de mercado será maior, visto que o comerciante pode querer maiores lucros, mesmo que diminua a demanda.

Demanda efetiva

Esses interessados são chamados de demandantes, ou demanda. Essa demanda é classificada em dois tipos: a demanda absoluta e efetiva (esse conceito foi feito mais detalhadamente apenas por Keynes, alguns séculos depois). A demanda absoluta são todas as pessoas interessadas por algo, como um carro de luxo. Assim, se 1 milhão de pessoas forem interessadas num carro de luxo, logo, a demanda absoluta por um carro de luxo é de 1 milhão.

No entanto, se apenas 100 pessoas tiverem condições financeiras de comprar este carro de luxo, a demanda efetiva é de apenas 100. Ao vender um carro de luxo, o comerciante não fará calculo de preço com 1 milhão de pessoas, mas com apenas 100 pessoas.

Conclusão

Podemos utilizar os manuais de microeconomia modernos para começar entender o que Smith disse em 1776. Ele explica as variações do preço natural de acordo com a oferta e demanda e a variação das taxas naturais de cada setor: terra, salário e lucro.

Exemplificando um pouquinho, se os preços de mercado forem muito menores que o preço natural, a os demandantes irão comprar mais do produto, até que os comerciantes vejam que existe margem parta aumentar os preços e equalizar tudo. O contrário também é verdade.

Como isso aqui não é um manual de microeconomia, não vou me estender, mas você poder tentar brincar com sua imaginação: Se você fosse um comerciante num mercado em que a demanda por seus produtos esteja aumentando, que você faria com os preços? E o contrário: se os preços dos seus insumos aumentassem ou fosse obrigado aumentar o salário de seus funcionários? Se divirta!

Nos próximos capítulos, Smith trabalhará com mais detalhe cada um dos setores aqui apresentados: terra, salários e lucros; e o que mais der na cabeça dele.

a riqueza das nações capitulo 7 preco natural
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Capítulo 8 (Salários)

Smith já passou por vários assuntos acerca da formação das mercadorias, preços, produtos, etc. No entanto, ele reserva este para discutir detalhadamente sobre como são formados os salários. 

Mais que isso, ele discorre sobre o que exatamente influencia o aumento ou a diminuição dos níveis de salários.

O trabalho

Nos primeiros estágios da produção, os trabalhadores eram os usuários da terra, trabalhadores do campo e comerciantes. Eles tinham parte em todo processo, e seu salário se constituía pelo esforço de seu trabalho. Se as coisas continuassem dessa forma, sem a divisão do trabalho, mas com aumento da tecnologia, o preço dos produtos diminuiria, visto que a mesma quantidade de trabalho produziria mais produtos.

Um trabalhador sozinho, mesmo que saiba todo o processo de produção, dificilmente vai conseguir fazer toda a empreitada de um ano inteiro, visto que ele teria que adiantar muito capital para a produção e para se sustentar durante o ano.

A produção

Embora não consigamos saber exatamente quando que a renda da terra e o acumulo de capital começaram imperar, sabemos que a renda da terra é a primeira parte que se deduz do lucro do capital. Quando um homem quer fazer uma empreitada de milho, por exemplo, ele primeiro deduz a renda da terra, depois os insumos, salários, e o restante é seu lucro.

Digamos que para a produção de milho seja necessário plantar em janeiro e colher em julho. Para isso, o trabalhador individual vai precisar comprar os insumos e maquinário, caso ele trabalhe sozinho. Durante os meses do crescimento do milho, ele terá que fazer a manutenção, alimentar seus família e sustentar quaisquer outros gastos.

Invés de pensar em tudo isso, o patrão é quem adianta todo o capital necessário para comprar os insumos do plantio e manutenção e maquinários; e o funcionário sustentar sua família durante esses seis meses.

Somente em julho, de um capital desprendido em janeiro, é que o patrão, se tudo der certo, irá vender os produtos e auferir seus lucros. Se der errado, ele será responsável por assumir os prejuízos, visto que já adiantou todo o capital anteriormente.

Os salários

E qual é a taxa média de salário? Não se pode ter certeza, visto que isso geralmente é decidido por disputas entre patrões e empregados. Os empregados querem sempre ganhar o máximo possível. O patrão, sempre pagar menos possível.

Nestas disputas, não se sabe bem quem ganha com mais frequência, mas podemos ter certeza de que quem é mais prejudicado é o trabalhador. Um patrão, caso os empregados fiquem um ano sem trabalhar, conseguiria se manter com seu patrimônio acumulado. Diferentemente disso, dificilmente se acha um trabalhador conseguiria ficar um ano sem trabalhar e se sustentar tranquilamente. Até mesmo um que ficasse um mês ou duas semanas.

Tanto é a diferença de tranquilidade nessas disputas que, geralmente, quando os patrões querem diminuir o salário, não fazem reuniões com todos os patrões de um setor. Quando fazem, é algo bem escondido. Na verdade, existe mais um conluio geral de que os patrões não aumentem tanto os salários, já que isso seria como uma traição contra os outros patrões, que perderiam seus empregados e seriam obrigados a aumentar os salários.

Do outro lado, quando os funcionários querem aumento, alegam o aumento do preço dos alimentos ou algo assim. Os funcionários fazem greves ou fazem balburdias nas fábricas, visto que eles não têm tanto poder de barganha. No entanto, quando os patrões conseguem ficar um bom tempo nessa negociação e acaba a paciência dos funcionários, eles podem partir para disputas físicas e quebradeiras generalizadas.

Entretanto, nessa empreitada, geralmente são presos ou agredidos pela polícia ou o exército. Ou seja, não é vantajoso que os funcionários partam para ultimatos, visto que eles e seus líderes têm muito mais a perder que os patrões.

Fundos de salários

Smith cita o autor Richard Cantillon para tentar determinar o salário justo de um trabalhador. Ele diz que o Sr. Cantillon afirma ser necessário para um trabalhador o suficiente para criar uma família de um homem, uma mulher e quatro filhos. O Sr. Cantillon diz isso por que é necessário que os filhos sejam criados até a fazer adulta; para uma família crescer em linhagem, são necessários ao menos dois filhos. No entanto, pode ser que dois desses filhos não cheguem à vida adulta por alguma doença ou tragédia. Smith não se aventura tanto nesta ideia, mas achou necessário dizer.

Às vezes os salários podem ser maiores que seu preço natural, e isso vem de algumas razões, essa razões vindas de uma coisa só: o aumento do fundo para os salários. Esse fundo de salários é constituído pelo excedente do lucro do dono da terra ou dos meios de produção. Ou seja, quanto mais o patrão lucra, mais ele vai aumentar os salários.

No entanto, você pode perguntar: “O patrão vai aumentar os salários por benevolência?” E a resposta é não.

Aumento de salários

Sabemos que a demanda por empregos é maior quanto maiores forem os salários. Aqui no Brasil, os salários e a qualidade de vida no Sul são maiores que no Nordeste. Por mais que algum nordestino possa amar sua cidade ou sua família e queira crescer lá, se quiser realmente enriquecer, vai acabar indo para o sudeste ou sul do país. Não significa que ele vai conseguir enriquecer, mas vai ter mais oportunidades e maiores salários.

Essa procura por empregos melhores é justamente o motivo dos salários aumentarem. Pensando como um patrão, imagina que você tem 100 funcionários e esteja tendo lucros suficientes para te sustentar. Agora, imagine que sua empresa comece a lucrar quase o dobro do que estava calculando, e você precise de mais funcionários pra dar conta da demanda.

Para resolver esse problema, seus funcionários vão pedir maiores salários, visto que a demanda de serviço aumentou. Mesmo assim, é necessário contratar mais pessoas, e você já aumentou os salários dos funcionários que já tem. O que precisa, agora, é aumentar o salário dos que já tem e contratar mais funcionários. Às vezes os novos funcionários serão mais capacitados e exigirão salários maiores do que está acostumado a pagar. No final das contas, lhe é benéfico, pois vai poder continuar crescendo sua empresa e tendo inovações com esses melhores funcionários.

Smith aponta que os melhores salários não costumam vir das maiores economias, mas aquelas que estão crescendo em tamanho. Ele usa o exemplo de que, em sua época (século XVIII), os salários nos Estados Unidos eram maiores que os no Reino Unido não porque os Estados Unidos eram maiores, mas por estarem crescendo e precisando de mais mão de obra e trabalhadores melhores. Os patrões dos Estados Unidos da época pensaram exatamente no que eu disse sobre o nordeste brasileiro e o sul: preciso de mais e melhores funcionários, e pra isso vou aumentar meu fundo de salários para atraírem mais e melhores funcionários.

Portanto, da mesma forma que os patrões podem aumentar o diminuir os salários de acordo com o crescimento de uma economia, Smith diz ser uma boa forma de enxergar o crescimento de uma economia visto pelo valor dos salários.

Exemplos práticos

O autor abre espaço para falar da economia chinesa como um exemplo de uma economia estagnada, onde os salários são baixos e existe miséria (na época de Adam Smith, é claro). Ele diz que na época de Marco Polo, as informações passadas por este último não são tão diferentes das de viajantes atuais (atuais para a época de Smith).

Algo até aterrorizante a se passar nesta parte do livro são as condições de miséria do povo chinês. O autor diz que não é incomum ver um cidadão chinês comendo carniças de navios abandonados, cachorros ou gatos, e até mesmo crianças. Ele diz que o governo chinês incentiva os cidadãos terem filhos; não porque ter filhos seja algo vantajoso, mas que pode ser benéfico para caso precise de carne. O autor revela que até mesmo existe um mercado de abandono de crianças. Terrível, né? Dá para ter uma noção do porquê das práticas alimentares chinesas dos nossos dias. Posso estar sendo grosseiro nessa análise, mas ao ler, fiz essa conexão sobre os hábitos alimentares.

A economia chinesa da época não estava regredindo, apenas estagnada. No entanto, se estivesse regredindo, teríamos um efeito contrário ao explicado sobre a economia dos Estados Unidos. Enquanto nos Estados Unidos os salários aumentam para atrair mais e melhores funcionários, em economias como Bengala e colônias inglesas da época de Smith, os salários diminuíam, causando um efeito em cascata negativo.

Economias

O que acontece nessas economias é que pela atividade econômica diminuir, as pessoas que têm seus próprios negócios acabam largando e procurando empregos formais que pagam salários. Esse acumulo de pessoas saindo de seus negócios e indo para empregos formais se somam à estagnação ou diminuição dos salários dos funcionários já empregados. Estes salários baixos fazem com que menos pessoas sejam atraídas para estes serviços, mas a população geralmente continua a mesma.

Quando estes fatores se somam, os salários diminuem ao ponto de estarem abaixo do ponto de subsistência da população. Não somente isto: alguns trabalhadores não conseguem ter emprego nem mesmo nestes empregos que pagam salários miseráveis. Ocorrem destas pessoas recorrer à mendicância ou a atividades moralmente contestáveis ou mesmo criminosas.

Portanto, a condição natural e necessária de uma economia em expansão é o aumento dos salários e da qualidade de vida; a condição natural e necessária de uma economia estagnada é a manutenção dos trabalhadores pobres; e a condição natural e necessária de uma economia em declínio é o aumento da miséria.

Conclusão

O capítulo já está muito extenso, e vou me privar a apenas dizer que até agora foram as partes importantes do capítulo. As demais partes deste, o autor se destina a contar particularidades de determinadas partes do Reino Unido e outras partes do mundo, como se para reafirmar suas ideias ou simplesmente deixar mais fixo na cabeça do leitor como era a vida dos trabalhadores naquela época.

O autor não quis deixar a leitura fácil, e se alongou bastante. Mas como meu papel aqui é fazer justamente o oposto disso, vou me despedir dos senhores e senhoritas para que você possa se deleitar nos próximos dois capítulos (que são tão extensos e cansativos quanto este, fique avisado).

a riqueza das nações capitulo 8 salarios

Preferi fazer o resumo apenas os 8 primeiros capítulos do livro 1 de A Riqueza das Nações, e não foi por preguiça. No total são 4 livros, e apenas os 6 ou 7 primeiros capítulos do livro 1 são realmente lidos nas faculdades de cursos como Economia, Direito e Filosofia. O restante dos 11 capítulos do livro 1 são coisas mais profundas e particulares. Quem deseja ler esses outros capítulos e livros não está buscando um resumo na internet. Não quero chamar você que está lendo esse resumo de preguiçoso ou desentendido, apenas estou dizendo que quem quer consumir os assuntos mais complexos dessa obra já tem um entendimento avançado de teoria econômica. Meu objetivo com esse artigo não é conversar com quem já é craque em Economia, mas com você que está começando seu caminho como economista; você que é de um curso que não necessariamente Economia, e precisa de uma ajudinha; ou você curioso, que só quer aprender. 

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