David Ricardo viveu entre 1772 e 1823 e foi um economista britânico e político muito influente na sua época. Ele é considerado uma das figuras mais importantes da escola clássica de pensamento econômico. Ele atuou ali junto com Adam Smith, Thomas Malthus e James Mill. Todos eles são economistas que até hoje são lidos e debatidos nas faculdades, nas empresas e em diversas discussões políticas. Por isso, mesmo que David Ricardo não seja o economista mais famoso ao você pensar em economia, ele com certeza impacta na sua vida. Os ensinamentos dele com certeza impactam no seu país ou na sua economia.
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ToggleQuem foi David Ricardo
David Ricardo nasceu em Londres e era o terceiro filho de uma família judia de origem portuguesa que havia se mudado da Holanda para a Inglaterra. Ele começou a trabalhar bem cedo, aos 14 anos, na bolsa de valores com o pai dele. Depois de um pouco mais velho, ele saiu da família dele e casou com uma mulher chamada Priscilla Anne Wilkinson, e se converteu para o cristianismo protestante, vale ressaltar. Na época era uma coisa bem importante, diferente do que é hoje, onde a gente vive num mundo mais multicultural. Na época, ser protestante ou católico diferenciava muito das suas visões de mundo, inclusive o liberalismo e o protestantismo têm uma ligação forte, principalmente na Inglaterra.
Ele também atuou na Bolsa de Valores de Londres — sim, naquele século XVIII e XIX já tinha bolsa de valores, não é uma coisa tão atual — e foi um cara bem rico, acumulou uma grande fortuna negociando títulos e financiando empréstimos para o governo. Com esse sucesso, ele conseguiu se aposentar cedo, com 40 anos, e depois foi para uma propriedade um pouco mais afastada e se dedicou à literatura, geologia, matemática e principalmente à economia.
Em 1819, ele comprou um assento no Parlamento britânico pelo distrito de Pollington. Ele atuou como um parlamentar liberal e reformista e defendeu a liberdade de imprensa, algumas reformas eleitorais e judiciais, a abolição da escravidão e o livre comércio. Algo importante é que ele combateu fortemente a Lei dos Cereais (ou as Corn Laws), que era um tema muito debatido e até hoje é discutido nas faculdades de economia porque dali se derivou muitos dos problemas e das discussões que a gente tem até hoje nas economias globais. E claro, ele teve destaque ao introduzir um rigor científico no uso de modelos numéricos abstratos no estudo da análise econômica, e nisso ele conseguiu se aprofundar melhor nas suas obras.
Obras e Contribuições
A obra mais famosa de David Ricardo é Princípios de Economia Política e Tributação, que é a sua obra-prima, mas antes disso ele criou outras obras.
O Alto Preço do Ouro, uma Prova da Depreciação das Notas Bancárias (1810)
Em 1810, ele publicou O Alto Preço do Ouro, uma Prova da Depreciação das Notas Bancárias, que foi o primeiro trabalho acadêmico de grande destaque, originado de um artigo chamado The Morning Chronicle. Ele defendia nesse artigo a limitação da emissão do papel-moeda e a adoção de um padrão metálico para combater a inflação e a desvalorização.
Você tá vendo como é importante entender esses economistas que viveram há séculos atrás? Até hoje a gente debate sobre a emissão de papel-moeda, se o M1, M2 devem crescer ou não devem existir, se a gente deve voltar ao padrão-ouro como alguns países na África atuam ou como alguns economistas nos países desenvolvidos propõem que a gente volte, diferente do que aconteceu depois de 1971 com a expansão das bases monetárias. Ou até mesmo discussões sobre o Bitcoin, que muitas pessoas chamam de ouro digital e que a gente deveria, de acordo com alguns economistas, usar o Bitcoin quando ele se estabilizar depois de bater a capitalização de mercado que hoje é do ouro, e aí sim ele ser usado como um hedge, um limitador da impressão de moeda dos países, e o Bitcoin virar o padrão-ouro. A gente tá falando disso hoje no século XXI, mas lá no século XIX David Ricardo já falava sobre isso — até antes, os fisiocratas também já falavam sobre isso. A limitação da emissão de papel-moeda era algo que também foi analisado lá na época do mercantilismo, onde com a introdução de mais ouro vindo das grandes navegações, a moeda usada dentro dos grandes Estados-nações diminuía de valor. Então a ideia de que quanto mais dinheiro na economia a partir das grandes navegações mais rico seria o país, na verdade se provou o contrário, porque quanto mais moeda tivesse dentro do país, menos essa moeda iria valer. E aqui David Ricardo, depois de alguns séculos do mercantilismo, voltou a debater isso e defender ativamente o combate à inflação e à desvalorização cambial.
Princípios de Economia Política e Tributação
Em 1817, ele lança a sua obra-prima, chamada Princípios de Economia Política e Tributação, onde estruturou suas teorias mais famosas e que até hoje são muito debatidas.
Teoria das Vantagens Comparativas
A primeira teoria foi a Teoria das Vantagens Comparativas. Ele demonstrou que o livre comércio internacional beneficia todos os países participantes quando um se especializa na produção de bens que possuem o menor custo de oportunidade relativo. Isso significa que, assim como Adam Smith tinha falado em A Riqueza das Nações sobre a divisão do trabalho evoluindo de uma economia primitiva até uma evoluída — como por exemplo um caçador, em vez de caçar, produzir arcos e construir sua casa, ele apenas caçava bastante e trocava o excedente da carne com o produtor de arcos e com quem construísse sua casa —, David Ricardo avançou nisso e disse que não só as empresas e as pessoas têm que dividir o trabalho, mas os países também se beneficiam disto.
O Brasil, por exemplo, que é um país agrícola, pode ser industrializado, mas tem um forte benefício geográfico de se especializar na parte agrícola. Não existe problema no país ser agrícola porque se ele for forte na parte agrícola e outro país for forte na parte industrial, os dois países conseguem se beneficiar.
Se isso é a forma correta ou se o Brasil deveria se desenvolver ou não, é outro assunto. O que interessa é que David Ricardo, a partir da Teoria das Vantagens Comparativas, disse que sim, isso é benéfico para todas as economias quando cada país se especializa em alguns campos de produção.
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Teoria do Valor-Trabalho
Outra teoria que ele desenvolveu é a Teoria do Valor-Trabalho, que é uma parte bem complexa, que nem Adam Smith nem David Ricardo conseguiram formular de uma forma tão precisa e coerente. Ele formulou essa teoria de que o valor de troca de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho necessária para a produção. Tanto Smith, quanto Ricardo, quanto Karl Marx analisaram isso — Karl Marx com um pouco mais de detalhe no livro O Capital —, mas que depois os marginalistas como Carl Menger, Böhm-Bawerk e vários outros economistas questionariam a partir da Teoria do Valor Subjetivo.
Teoria dos Salários e Lucros
Outra teoria dele foi a Teoria dos Salários e Lucros, onde ele dizia que os lucros e os salários variam em sentido inverso: quanto mais lucro, menos salário; quanto mais salário, menos lucro. Ele sustentava que os salários tendem a se fixar próximos do nível de subsistência do trabalhador, algo que Smith e Karl Marx também diziam. Então ele entendia que quanto maiores os salários, menores os lucros, ocorrendo uma fixação dos salários no limite da subsistência e, a partir disso, os empresários tentavam lucrar o máximo possível sem pagar nada mais que o necessário para a subsistência dos trabalhadores.
Leis dos Rendimentos Marginais Descrescentes
E não podemos esquecer da Teoria da Lei dos Rendimentos Marginais Decrecentes. Ela foi inicialmente formulada pelo economista Jacques Turgot lá no século XVIII, um pouco antes, mas ela só foi popularizada mesmo e desenvolvida por Ricardo em Princípios de Economia Política e Tributação. Isso porque Turgot tinha apenas falado superficialmente sobre essa questão dos rendimentos marginais decrecentes, mas Ricardo colocou isso ancorado na produtividade das terras. Ele entendia que deveria existir uma rotatividade das terras do país porque as terras se desgastavam com o tempo.
Se produzisse muito na mesma terra, chegaria um momento em que a cada unidade de novo hectare de produção aquela terra no geral iria render menos. Então existia um ponto ótimo onde você deveria produzir em cada terra, porque se você produzisse menos, você não estaria utilizando todos os benefícios daquela terra, e se você produzisse a mais do que aquele ponto ótimo, você estaria mais desgastando a terra do que realmente tendo produtividade. Então compensaria você produzir só naquele ponto ótimo e depois plantar mais em uma outra terra.
Hoje em dia isso é utilizado para diversas coisas, mas um exemplo que eu posso dar aqui é sobre uma empresa fictícia. Se você, por exemplo, tem uma lanchonete que precisa de quatro pessoas para trabalhar, se você tiver 1 funcionário, você vai estar com a produtividade a menos do que você precisaria, e não vai conseguir atender todos os pedidos.
Se você tiver 2, vai melhorar sua produtividade, vai conseguir produzir mais, chegar mais próximo do ideal. Quando chegar em 3, 4, perfeito! Só que se você contratar 1 funcionário a mais — ou seja, a margem desse funcionário a mais —, a cada mais 1 que você adicionar iria cair sua produtividade, porque não vai melhorar sua produtividade, vai faltar serviço para esse funcionário a mais e vai acabar que todos os outros vão trabalhar menos.
Então se você quer maximizar o trabalho dos seus funcionários, o ponto ótimo dessa sua lanchonete é de 4 funcionários. A cada 1 funcionário a mais que você colocar, vai estar perdendo dinheiro e diminuindo o serviço máximo possível desses trabalhadores.
Existem outras aplicações, mas essa é uma aplicação prática de hoje em dia, e é claro que na época de David Ricardo tiveram outras aplicações, mas de qualquer forma essa foi uma contribuição deixada por David Ricardo.
Um detalhe importanteé que a Teoria dos Rendimentos Marginais Decrescentes, feita no séculoi XVII, foi a sistematização de algo que já vinha ocorrendo no Capitalismo Comercial, num período marcado pelo Mercantilismo. Nesse período iniciou oi que hoje chamamos deDivisão Internacional do Trabalho (DIT).
Plano de estabilização do Banco Nacional
Existiu também uma outra publicação, dessa vez póstuma, em 1824 (um ano após a morte de David Ricardo), onde ele defendia a criação da autonomia do Banco Central responsável pela emissão controlada da moeda. Lembra, mais uma vez, as aplicações de David Ricardo aos nossos dias atuais?
No governo Bolsonaro foi aprovada a independência do Banco Central, o governo Lula diz não ser a favor, e até hoje é debatido e discutido por diversos economistas e políticos se o Banco Central deve ser autônomo ou não. Ou até mesmo políticos como Javier Milei, que é libertário e da Escola Austríaca de Economia, que diz que o Banco Central tem inclusive que acabar e as pessoas têm que usar moedas descentralizadas e escolher qual moeda irão usar.
Considerações finais
Ou seja, David Ricardo é um economista não tão conhecido pela maioria das pessoas, mas para quem quer estudar como a economia clássica se desenvolveu, David Ricardo é alguém indispensável. Não exatamente para que você concorde ou discorde do que ele tá falando, mas para entender o que acontecia naquela época e as contribuições desse importante economista, que foi alguém muito culto, muito próspero financeiramente e que, para a época dele, teve contribuições dentro da discussão econômica que até hoje são debatidas no mundo todo.